Torres Vedras

Carlos Bernardes

01.01.2016

Carlos Bernardes assumiu no dia 1 de dezembro as funções de presidente da Câmara Municipal na sequência da integração de Carlos Miguel, anterior líder do executivo municipal, no XXI Governo Constitucional, como secretário de estado das Autarquias Locais.

Pouco depois de ter assumido as suas novas funções, Carlos Bernardes esteve à conversa com a [Torres Vedras], tendo na ocasião abordado este seu novo desafio, as prioridades políticas que defende para o concelho, a evolução do mesmo, a realidade atual do poder local e o seu percurso de vida profissional e pessoal. Para Carlos Bernardes, a sustentabilidade é a palavra-chave para a ação governativa...

É presidente da Câmara Municipal desde o dia 1 de dezembro. Como está a encarar este novo desafio?

É um desafio que entendo ser relevante para quem, aos 47 anos, assume a presidência de um Município que é hoje uma referência nacional e internacional. É com um enorme espírito de missão que encaro a continuação deste mandato. Com muito entusiasmo, muita energia, de forma a dar continuidade a um trabalho que foi desenvolvido pelos meus antecessores.

Portanto, apresento como referência esse trabalho essencial e que tem vindo a ser feito pelos autarcas, desde presidentes de câmara, vereadores, membros da assembleia municipal, presidentes de junta, membros das assembleias de freguesia, ou seja, toda a família do poder local que tem contribuído para que efetivamente o concelho de Torres Vedras seja um modelo reconhecido de gestão autárquica. É dentro desse espírito que estou muito empenhado e determinado em levar por diante a continuidade de um projeto que tem como objeto final dar uma melhor qualidade de vida a todos os torrienses.

Optou por manter o pelouro do Ambiente e da Sustentabilidade. De que forma estes domínios podem ser decisivos para o desenvolvimento do concelho?

Esses domínios são fundamentais. Recentemente, ocorreu a Cimeira em Paris que teve que ver essencialmente com as alterações climáticas. Onde a componente do ambiente e da sustentabilidade são determinantes para o futuro do nosso planeta. E se a nível local podemos contribuir para esses desígnios que são mundiais, entendi por bem dar continuidade ao trabalho que vinha desenvolvendo no ambiente e sustentabilidade, numa visão estratégica que assenta fundamentalmente em quatro pilares: o pilar do ambiente, o pilar social, o pilar económico e o pilar da governança. Se estes quatro pilares forem fortes, estou convicto que iremos ter uma sociedade melhor no futuro. Se todos lutarmos será possível alcançar esses objetivos. O Município de Torres Vedras e os torrienses têm dado provas disso mesmo, estando todos envolvidos para que se consiga fazer do concelho de Torres Vedras uma referência em vários domínios.

Carlos Bernardes

Qual é o modelo de desenvolvimento que defende para o concelho de Torres Vedras?

O modelo de desenvolvimento que deve assentar essencialmente na relação com a nossa comunidade. Até aqui tínhamos um modelo que preconizava de certa forma aquilo que era a gestão do Município essencialmente assente na decisão política. Em 2015, evoluímos positivamente no meu ponto de vista, ao avançarmos com o orçamento participativo. Tivemos essa experiência, queremos reforçá-la no futuro.

Diria que há um conjunto-chave de ações que são estratégicas do meu ponto de vista. Por um lado, continuar a apostar de uma forma muito clara na educação. Não só complementar a rede de equipamentos educativos, mas também a formação dos nossos ativos é fundamental. A cultura também se assume um papel transversal. É importante fazermos a correlação entre aquilo que é o desenvolvimento da educação com a própria cultura. Reforço esse que se irá traduzir a curto prazo, com a criação de mais dois novos equipamentos dedicados à cultura no nosso território. Refiro-me precisamente ao Centro de Artes do Carnaval e ao Centro Cívico de Santa Cruz. São equipamentos numa rede que queremos dinamizar ao nível cultural, quer pela cidade quer por vários locais do nosso concelho. A relação entre a cidade, o campo, o mar, permite-nos desenvolver um trabalho profundo. A aposta num modelo de turismo sustentável é crucial, estando em preparação a elaboração do Plano Estratégico de Turismo.

Como tem visto a evolução do concelho?

Muito positiva. Vivi em Caneças até aos 8 anos, desde então tenho residido no Turcifal. Com muita alegria minha tenho percebido que este município tem tido um grande desenvolvimento nas últimas quatro décadas. Se volvermos quarenta anos, este era um território que possuía uma rede viária e uma rede de saneamento doméstico deficitária. Apenas a cidade e uma ou outra aldeia tinham água e energia elétrica.

O concelho foi evoluindo positivamente até aos nossos dias. A qualidade de vida volvidos todos estes anos é, do meu ponto de vista, extraordinária. Hoje, somos reconhecidos nacional e internacionalmente. A Comissão Europeia distinguiu-nos recentemente como o melhor município, atribuindo o galardão Green Leaf, pelas nossas caraterísticas atentas a um conjunto de preocupações que são determinantes como a gestão da água, da mobilidade, dos resíduos e da biodiversidade. Há, assim, um reconhecimento do trabalho que foi desenvolvido nas últimas quatro décadas.

É dentro desse espírito que estou muito empenhado e determinado em levar por diante a continuidade de um projeto que tem como objeto final dar uma melhor qualidade de vida a todos os torrienses.

O trabalho de apetrechamento do concelho em termos de equipamentos básicos está praticamente concluído. Nessa medida, quais serão os desafios futuros do concelho no que diz respeito ao trabalho autárquico?

O trabalho autárquico é algo que, como costumo dizer, tende para o infinito. Contudo, julgo que há todo um conjunto de elementos que são fundamentais, tendentes a dar resposta a essa pergunta, que têm que ver por um lado com o facto de envolvermos a nossa sociedade e, por outro lado, apostar cada vez mais naquilo que são as medidas de empreendedorismo, inovação, conhecimento, com novas tecnologias ao nível da administração local para que sejamos mais eficientes e eficazes na prestação de serviços.

Portanto, este é um grande desafio que vamos ter pela frente. E, à semelhança do que acontece em outros países, nomeadamente no norte da Europa, devemos ter projetos ao serviço das nossas comunidades que nos levem a produzir mais riqueza, mais tecnologia, mais inovação, mais criação de emprego, para que possamos ter uma sociedade mais justa. O desafio do futuro é também ir ao encontro daquilo que são os desígnios que estão no horizonte 2020 da própria Comissão Europeia na sua transversalidade e nas suas várias áreas de atuação, digamos, aquilo que são as metas introduzidas pela própria Comissão Europeia ao nível social, da educação, ao nível cultural.

São eixos vitais na minha forma de ver e de analisar. Como é óbvio, cada território tem as suas especificidades, e Torres Vedras que está a cerca de 40 km da nossa capital, a 300 km do Porto ou a 600 km de Madrid, junto ao Atlântico, tem aqui um papel relevante no que diz respeito aos desafios da própria internacionalização do território, dando condições às empresas aqui sediadas, e que já têm hoje esse papel exportador, mas também tornando possível atrair mais tecido empresarial e podendo ser esse o desafio do futuro para que Torres Vedras continue a dar um contributo forte na sua tão longa história.

Acha que os municípios e o poder político têm capacidade de intervir de forma decisiva na dinâmica económica das comunidades?

Têm um papel importante, é óbvio que têm. Nomeadamente ao nível dos instrumentos de planeamento, na área do ordenamento do território, que expressam uma determinada visão, e que levam a que o território possa ser cada vez atrativo. Mas também tem outros mecanismos, nomeadamente ao nível de taxas e outros instrumentos que podem ser diferenciadores, que podem potenciar Torres Vedras. Estamos nessa medida a trabalhar com muita intensidade para podermos produzir um novo regulamento de taxas, para que o concelho seja cada vez mais atrativo para as empresas.

A Câmara Municipal tem um papel fundamental como locomotiva de todo esse processo, sendo que a decisão cabe sempre ao investidor nesta ou naquela área. Torres Vedras deverá ter uma plataforma territorial para a economia verde tendente a criar dinâmicas de atração para investidores nacionais e internacionais.

Carlos Bernardes

Passando para um registo um pouco mais pessoal, perguntava-lhe quais são as caraterísticas que moldam a sua personalidade?

O meu signo é aquário e enquanto aquariano tenho algumas particularidades. Sou uma pessoa que se define por ter um “coração aberto”. Procuro ser igual a mim próprio, quer do ponto de vista pessoal, quer do ponto de vista profissional, quer do ponto de vista familiar. Vejo sempre as coisas de uma forma muito, muito positiva, e às vezes não são tão positivas como o meu subconsciente avalia. Mas isso faz parte da vida, da maneira e da forma de ser e de estar da minha pessoa. A perceção que tenho é que as coisas não caem do céu e que temos de ter os pés bem assentes na terra, levando a que seja persistente. Gosto de viver o dia a dia com naturalidade, dentro do padrões de educação que me foram transmitidos pelos meus pais, procurando também educar o meu filho dentro dos mesmos.

Por falar em casa, e entrando num registo talvez um pouco mais intimo, tem hobbies, interesses, passatempos, em especial, que gostasse de confidenciar?

Essencialmente sou um homem que gosta de viajar, por influência do meu pai. Desde muito jovem que procuro estar a par daquilo que são as várias sociedades. Outros hobbies são nadar, assistir a um jogo de futebol, ver uma partida da NBA ou uma etapa do campeonato do mundo de surf. Tenho também especial interesse por programas televisivos relacionados com natureza, como sendo a National Geographic.

Tem também uma relação muito próxima com o mar…

Sim, talvez por a minha génese vir da freguesia da Silveira, de onde são naturais o meu pai e a minha mãe, desde muito novo aprendi a nadar em Santa Cruz. Gosto muito de praia, e daí essa relação com o mar que é para mim muito afetiva.

Ao longo do seu percurso desempenhou também funções em algumas associações. Gostava de relevar algumas dessas experiências?

Foram experiências que me ensinaram muito enquanto cidadão, podendo colaborar para a nossa sociedade de uma forma voluntária. Comecei muito novo a ter funções de direção no Grupo Desportivo da Casa do Povo do Turcifal, mais tarde fui presidente da Casa do Povo do Turcifal e membro da direção do Torreense. Mais recentemente fui segundo secretário da Associação de Socorros da Freguesia do Turcifal, funções que deixei atendendo ao facto de ter assumido a presidência da Câmara Municipal. E portanto tenho tido esse percurso no mundo associativo desportivo, cultural e social.

Pratiquei também várias modalidades desportivas na minha juventude. Fui jogador de andebol da seleção da escola Secundária Henriques Nogueira, de futebol no Turcifal e de basquetebol na Física. Atualmente, só consigo ter uma ou outra hora disponível para ir ao ginásio.

Resido no Turcifal e os vizinhos trocam coisas entre si. E, portanto, isso é salutar, faz parte da nossa matriz enquanto torrienses, partilhar.

Tem projetos, sonhos, que gostasse de concretizar no futuro, para além daquilo que está a realizar presentemente?

Como disse, eu vivo um dia de cada vez, sonho, como qualquer pessoa, tenho os meus objetivos. Não sou um homem materialista, procuro dar qualidade de vida à minha família, sendo essa a minha primeira grande opção. Acho que um dos grandes pilares de qualquer pessoa é ter um núcleo familiar forte e aí tenho essa felicidade de ao dia de hoje ter os meus pais, a minha mulher, o meu filho, o meu irmão, a minha cunhada e a minha sobrinha que irá nascer brevemente, sendo que juntos formamos um núcleo mais próximo e vivemos todos perto uns dos outros.

Como é óbvio há sempre sonhos que gostaríamos de vermos concretizados e eu concretizei diversos até ao dia de hoje. Relativamente ao futuro, o meu principal sonho é ter saúde, para conseguir concretizar tudo aquilo a que me proponho para o território de Torres Vedras. Mas também não escondo que gostaria de ver em Torres Vedras, tendo em conta o que tenho vindo a desenvolver e a investigar, um museu que fosse uma referência sobre as Linhas de Torres Vedras.

Se me disser assim, com o conhecimento que tenho hoje de causa em relação à componente e ao património histórico-cultural do que são as Linhas de Torres Vedras, a criação de um museu que tenha atratividade quer do ponto de vista nacional quer do ponto de vista internacional, era um sonho que gostava de concretizar, não digo que não.

Há pouco falava da sua família, acha que embora o concelho de Torres Vedras tenha neste momento cerca de 80 mil habitantes, sente-se ainda um espírito de família nesse território?

Sim, na medida em que apesar do crescimento do território, nós hoje ainda vamos pela cidade e dizemos “bom dia” às pessoas, bem como nas nossas aldeias. Este é um valor muito importante. Nas grandes cidades, nas grandes metrópoles, passamos uns pelos outros, não nos conhecemos.

O nosso território tem essa particularidade. Praticamente todos nos conhecemos uns aos outros, todos nos cumprimentamos uns aos outros, e isso é um património que é invejável. Só assim é possível dizermos que vivemos em sociedade. É fundamental haver essa relação quase de vizinhança em todo o território e esse modelo é essencial. Resido no Turcifal e os vizinhos trocam coisas entre si. E, portanto, isso é salutar, faz parte da nossa matriz enquanto torrienses, partilhar.

Carlos Bernardes

Para terminar a entrevista, perguntava-lhe se gostava de deixar alguma mensagem aos seus concidadãos?

Uma mensagem essencialmente de esperança, de caminhos que têm de ser percorridos par a par, lado a lado, com um objetivo muito claro, de levarmos por diante os desígnios daquilo que é uma sociedade que queremos que seja cada vez mais solidária, mais proativa, mais desenvolvida, tendente a que a igualdade social e a igualdade de oportunidades seja para todos.

Por outro lado, encontrar plataformas de entendimento que nos levem a fazer um percurso vocacionado a que este concelho de Torres Vedras possa servir as gerações vindouras, de modo a que continuem a ter níveis de qualidade de vida cada vez melhores do que aqueles que temos ao dia de hoje. Esse é o grande desafio. É trabalhar para estes meninos que vêm agora a passar aqui nas nossas costas [nesta altura passavam crianças de uma escola do concelho para uma visita ao Centro de Educação Ambiental] e que as novas gerações possam contribuir de uma forma muito positiva para que tenhamos um futuro melhor.

E isso cabe-nos a nós. Educá-los e fazer com que o caminho seja possível de ser percorrido porque serão eles e elas, os homens e as mulheres do futuro. Essa é a nossa missão enquanto autarcas, preparar gerações para o futuro, gerações essas que estejam devidamente capacitadas para encontrar sinergias e para dar continuidade ao trabalho que foi desenvolvido até aqui, para que essas gerações possam ser referência num mundo que é cada vez mais global, sempre apostados em fazer daquilo que é local, nosso, uma grande marca de identidade que é a marca Torres Vedras.