Torres Vedras

Clube de Robótica do Agrupamento de Escolas de São Gonçalo

01.07.2017

Em Torres Vedras há uma equipa que tem dado cartas nas áreas da programação e da robótica. Não são ainda cientistas conceituados, mas antes alunos muito empenhados e curiosos que contam com o apoio de uma equipa de professores. Nesta edição, entre componentes, peças e robôs, estivemos à conversa com elementos do Clube de Robótica do Agrupamento de Escolas de São Gonçalo.

Chegámos para a realização da entrevista e percebemos, desde logo, que ali se “respira” robótica. O professor Jaime Rei abriu-nos a porta da sala de Projetos, à qual os alunos acedem por código no horário que pretendem, e lá estava toda uma montra de pilhas, baterias, fios e outras peças que o meu fraco conhecimento na matéria não me permite identificar ou decifrar a sua utilidade.

Antes de iniciarmos a conversa, rodeados por robôs comandados por telemóvel e que tocam músicas selecionadas de uma playlist, tivemos de chamar várias vezes os nossos entrevistados que estavam totalmente embrenhados nos seus computadores, enquanto pediam uma ajuda ao professor. Confesso que estava fora da minha zona de conforto, por não dominar a temática, e que me deixei deslumbrar pela forma entusiasta com que estes alunos responderam às minhas questões.

Sempre muito bem acompanhados pelo Smart, o robô coqueluche do grupo, durante a condução da entrevista, foi-me explicado que o Clube de Robótica é um grupo grande, com mais de 50 alunos, 7 professores e uma psicóloga, coordenado pelo professor Jaime Rei e, segundo Miguel Santos (7.º ano, 12 anos), um sítio onde todos se empenham e dão o seu melhor. Além do mais, salientou a necessidade de ali se reciclarem materiais e evitarem desperdícios. O clube tem horários específicos de funcionamento, mas os alunos podem, a qualquer hora, frequentar a sala de robótica e testar programações. “É o melhor grupo da escola, na minha opinião”, confessa-nos Miguel, orgulhoso.

Para Leonor Melícias (5.º ano, 11 anos), a decisão de entrar no Clube de Robótica foi um “assunto de família”, já que o irmão a incentivou e lhe disse que seria uma experiência muito gira. Leonor decidiu experimentar e gosta muito. Antes da entrevista lá estava ela, ao pé da janela, agarrada ao seu computador, enquanto tirava dúvidas de programação com os rapazes do grupo. Este ano a Leonor ainda não participa, mas acompanhará a equipa na sua deslocação ao Campeonato do Mundo de Robótica que este ano se realiza no Japão.

Tivemos curiosidade em perceber de que forma surgem as ideias e como as desenvolvem no contexto do clube. David Antunes (8.º ano, 14 anos) explicou-nos que todos os anos desenvolvem um projeto, no âmbito do programa “Ciência na Escola” da Fundação Ilídio Pinho, e muitas das vezes na área da Medicina, para poderem ajudar pessoas com dificuldades. Os projetos são pensados pelos alunos, em estreita colaboração com os professores que lhes dão umas dicas para que estes sejam colocados em prática no mundo da robótica. Se é fácil? O David, que se deixa “mergulhar” facilmente neste tema e o explica como se trabalhasse na área há longos anos, responde-nos que é preciso gostar mesmo muito disto, para se perderem tantas horas a aprender programação.

No Clube de Robótica da Escola de São Gonçalo são praticadas quatro modalidades, que o Gonçalo Caetano (6.º ano, 11 anos) tão bem nos soube explicar com um entusiasmo contagiante, são elas: o futebol robótico, que se baseia na utilização de dois robôs autónomos que jogam, dois contra dois, em equipas separadas; segue-se a modalidade de busca e salvamento que, como o nome indica, consiste em salvar vítimas, “neste caso são bolas de metal espalhadas por uma sala de evacuação, no final de uma pista de seguimento de linha, mas mais elaborada do que esta que aqui temos”. Também existe o onstage que consiste numa prova para superar desafios e foi nesse momento que o Gonçalo nos apresentou o Smart, um robô didático em que a equipa trabalhou a apresentação dos sistemas digestivo, circulatório e respiratório. Finalmente há a modalidade de rescue maze, trabalhada por alunos um pouco mais experientes que constroem um robô que vai detetar uma vítima, através do calor, e lhe deixa um kit de sobrevivência.

Quanto a trabalhos que tenham apresentado recentemente, coube ao David apresentar-nos o “Ver a Sentir/Ouvir” e o “Aprender a Programar”, projetos que arrecadaram o 3.º lugar e o 1.º lugar, respetivamente, ambos na categoria de freebots*, no Campeonato Nacional de Robótica deste ano e candidatos ao Prémio Ciência na Escola 2017. “Ver a Sentir/Ouvir” “ foi um projeto desenvolvido a pensar em cegos ou pessoas com dificuldades visuais que podem, por exemplo, ir a um supermercado e fazer as suas compras sozinhas, ou mesmo andar sozinhas na rua e conseguir identificar as lojas. “Consiste numa raspberry pi, que é um computador pequeno que tem um leitor de NFCs, que ao passar por uma etiqueta dá indicação da informação para um auricular ou para umas colunas, de acordo com a informação gravada. Pode ouvir-se, por exemplo: Água, 56 cêntimos”.

Já o “Aprender a Programar “ foi construído para os alunos mais novos aprenderem a programar desde tenra idade. Consiste numas “peças de lego que, consoante as direções, dão indicação ao robô para fazer uma coisa específica. Tem também um tabuleiro, pode-se regular os tempos e fazer um percurso nesse tabuleiro”. A comunicação entre o robô e o tabuleiro é feita por bluetooth.

Orgulhoso nos resultados obtidos estava Francisco Simões (7.º ano, 12 anos) que participou no Campeonato Nacional de Robótica e se mostrou muito entusiasmado com os prémios aí alcançados nas modalidades de futebol robótico, busca, onstage e freebots.
Impressiona o à vontade e a curiosidade que estes alunos demonstraram em falar sobre todas as temáticas em entrevista, mostrando que conhecem bem o funcionamento do clube, os seus projetos, mas sobretudo o trabalho desenvolvido por toda a equipa.

E como surgiu este Clube de Robótica?

O professor Jaime Rei, coordenador do clube, recorda-se de, em 2007, terem participado pela primeira vez num campeonato, que decorreu em Paderne, dentro de um espírito de brincadeira. A verdade é que ficaram apurados para ir ao Campeonato do Mundo de Robótica que nesse ano se realizou em Atlanta, nos Estados Unidos da América. “Acabámos por ser a seleção portuguesa naquele ano e ficámos num honroso décimo lugar. Foi para nós uma grande surpresa e uma grande proeza”.
A participação neste campeonato do mundo acabou por abrir as portas ao que o Clube de Robótica é hoje. Foi então que se pensou em formar uma equipa de alunos e professores interessados nestas matérias e, atualmente, existe uma excelente equipa multidisciplinar composta por 7 professores e uma psicóloga, porque “a robótica é precisamente isso… é transversal a várias disciplinas”.

"A equipa tem feito um trabalho notável e, como se diz por aí, em equipa vencedora não se mexe!"

Os resultados falam por si e o professor Jaime atreve-se a afirmar que são a escola, a nível mundial, com mais participações em campeonatos do mundo de robótica: “uma escola apurar uma equipa para um campeonato do mundo é uma grande proeza, mas não vai a um campeonato do mundo quem quer, mas antes quem é apurado”. A verdade é que o Clube de Robótica da Escola de São Gonçalo não tem apurado uma, mas sim várias equipas por ano.

Este ano, com o campeonato mundial a decorrer no Japão, em julho, tem havido alguma preocupação em garantir a deslocação das três equipas da escola, mas todos estão muito otimistas e com a certeza que trarão bons resultados para Torres Vedras e Portugal.
Já todas as equipas de outros países conhecem os alunos do Clube de Robótica da Escola de São Gonçalo, não só por conseguirem apuramentos sucessivos, não só por serem a maior comitiva internacional presente, não só por ficarem sempre nos 10 primeiros lugares, mas também porque são a única escola do mundo que conseguiu alcançar três títulos mundiais nas 3 modalidades em que participou. Não é, certamente para todos! Estes resultados espelham as muitas horas de dedicação e o trabalho árduo de professores e alunos.

Refere o coordenador do Clube de Robótica que estes professores são apenas professores de uma escola pública e que não têm alunos mais inteligentes do que os alunos de outras escolas.

Não há projetos de sucesso. Há projetos com sucesso no ensino em Portugal e o nosso sucesso, enquanto equipa, deve-se ao dinamismo e ao empenho de todos, à vontade de querermos estar aqui.

Quando falamos com o professor Jaime Rei sobre a realização pessoal que o Clube de Robótica lhe traz, responde-nos, de sorriso aberto, que é ali que se sente bem, que sente que é uma missão que tem e só não faz melhor porque não pode.

Sobre a importância da participação destes alunos no Clube de Robótica, não tanto a nível académico, mas antes do ponto de vista da estruturação da sua personalidade, o professor Jaime refere que as pessoas aprendem diversas matérias para serem cidadãos do amanhã e que estes alunos andam na escola a aprender robótica para serem cidadãos melhores.
Com efeito, encontramo-nos num ponto de mudança de paradigma. Estes jovens daqui a 10 anos vão encontrar profissões que não existem, porque vivemos uma mutação total a um ritmo muito acelerado e a Escola tem de acompanhar essa evolução. É com alguma mágoa que refiro que há escolas que não acompanham esta mudança e os conteúdos programáticos não são apelativos a estes jovens. Temos de ser visionários e perceber que na próxima geração vão surgir novas oportunidades, novos empregos e cabe-nos preparar estes jovens para isso. Não podemos, simplesmente, daqui a 10 anos formatá-los e programá-los novamente como fazemos com os robôs.

Para todos os que gostassem de juntar-se à equipa do Clube de Robótica, a Escola de São Gonçalo é uma escola aberta. Há alunos que integraram o clube em 2007, prosseguiram o ensino secundário e superior, e ainda hoje colaboram e participam em iniciativas do Clube e estão ligados à escola. “Somos uma escola que abriu as suas portas à comunidade e a todas as escolas de outros agrupamentos, por essa razão recebemos alunos, por exemplo, da Madeira Torres, Externato de Penafirme ou Henriques Nogueira, que desenvolvem projetos connosco e nos acompanham nas competições”, salienta o professor Jaime Rei.

Nesta entrevista, o especial destaque vai todo para esta equipa de alunos e professores empenhados, curiosos, persistentes e cheios de projetos. Foi muito bom conhecer o trabalho realizado pelo Clube de Robótica da Escola de São Gonçalo, composto por um conjunto de “engenhocas” que nos mostram que é de tenra idade que se pode “pensar fora da caixa”, desformatar ideias e programar grandes sucessos.

Ao Miguel Santos que quer ser político, à Leonor Melícias que quer ser engenheira informática, ao Gonçalo Caetano que quer ser engenheiro eletrotécnico, ao David Antunes que quer ser programador, ao Francisco Simões que quer ser informático, ao professor Jaime Rei e a todos os alunos e professores do Clube de Robótica da Escola de São Gonçalo, a Revista “Torres Vedras” deseja sorte e sucesso para trazerem ainda mais prémios do Japão, na vossa participação no Robocup 2017.

*FreeBots é uma competição que pretende desafiar a comunidade de investigação e desenvolvimento, a nível mundial, a apresentar os seus resultados de investigação, sob a forma de uma apresentação técnica e de uma demonstração pública. O âmbito das demonstrações abrange robôs físicos (um ou mais), móveis ou não, terrestres, aquáticos ou aéreos.