Torres Vedras

Para uma caracterização da matrafona

01.03.2018

Para uma caracterização da matrafona

O Carnaval, sendo hoje uma festa, assenta na tradição de um conjunto de práticas distintas, que contribuíram para forjar, num continuum, a sua identidade. Dentre essas práticas, identifica-se a inversão de valores, regras e papéis, de que são sua evidência o disfarce, quando não a máscara, esta já usada no teatro grego, simbolizando a transformação de quem a usava em outra pessoa (de personna, termo latino para máscara).

A máscara encontra-se, porém, aparentemente ausente do Carnaval torriense (sendo substituída pela pintura, porque uma cara pintada não é uma cara sem máscara), mas não o disfarce, conseguido através das vestes, que permite a cada um a sua transformação em um outro, não para se negar a si próprio, mas, sobretudo, para se afirmar naquilo que ele é.

Referimo-nos ao disfarce de Matrafona, uma representação da inversão da ordem social e, de modo particular, da inversão de papéis, que a Igreja Católica há séculos condenava. Deste modo, as Matrafonas traduzem, na sua essência, a presença do interdito, quebrado por um breve período, para, depois de terminado este, se retornar à ordem social e religiosa.

A sua origem remonta, muito provavelmente, ao final do século XIX, quando a sátira social passou a marcar o Entrudo rural, e a falta de recursos tornava mais fácil o acesso as roupas velhas e fora de uso. Depois, ganharia expressão, em número, sobretudo a partir da década de 20 do século passado, no Carnaval torriense, com o aparecimento da Rainha (das Matrafonas), em 1924.

O que entender por Matrafona? Se, em primeiro lugar, é uma mulher desajeitada, malvestida e malcuidada, no contexto do Carnaval, de que o Carnaval torriense é exemplo (mas não só!), o termo é usado para definir o homem, que se veste e mascara de mulher de forma desajeitada, malvestida, malcuidada e espalhafatosa (Dicionário Priberam), de modo a ridicularizar e a provocar nos outros o riso. É plausível que o seu radical ‘matr-’ apresente uma origem indo europeia, cuja raiz aponta para “mãe”.

Mas não se trata de nenhuma forma de se travestir.  A Matrafona, ao vestir-se de mulher, projeta no corpo e no vestuário aquilo que possui de mais másculo: os pelos do corpo (na barba, no peito e nas pernas), o andar gingonçado, a saia ou o vestido desajeitado, a pintura do rosto borrada, e, sobretudo, objetos e frases que afirmam a sua masculinidade e virilidade, de que a maior evidência é a representação do próprio órgão sexual masculino.

Por tudo isto, a letra da canção "Samba da Matrafona", de Susana Félix, é bem identitária da Matrafona (neste caso da torriense, mas não só), pois ‘Matrafona tem mulher em casa dela’, ninguém se vai enganar, manda beijo de batom borrado/num vestido que parece do tamanho errado’ e tem a ‘a perna cabeluda’. Apenas para provocar o riso, que, pelo exagero, sempre consegue, ‘e quem se rir só por te ver/cumpre bem certo o teu querer’.


Carlos Guardado da Silva

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