Torres Vedras

Vítor Napoleão

01.09.2018

Todos o conhecem pela produção de vinho, mas quase ninguém sabe que o seu início de carreira passou pelo mundo da moda. Vítor Napoleão, produtor de vinho, presidente da Associação de Agricultores de Torres Vedras e diretor da Associação para a Valorização Agrária, recebeu a Torres Vedras na Quinta da Portucheira, para uma conversa com vinhas e pomares como pano de fundo.

 

O que é que mudou no campo, na agricultura?

Mudou muito. Eu recordo-me de, no tempo dos meus avós e dos meus pais, fazermos uma vinha e andarem 90 pessoas a alqueivar. Com uma enxada com pontas fazia-se um sulco com um metro de altura – que agora se faz com máquinas, muito facilmente. Fazer-se uma vinha de um hectare com 90 homens… Eu não me recordo, mas levava muito tempo. O cansaço era muito grande, as pessoas alimentavam-se mal… Olhe, não era fácil. Recordo-me de andarem rapazinhos, filhos e netos dos que andavam a trabalhar, com um caneco a dar-lhes água. Atrás vinha outro com vinho ou água-pé. […] Tudo isso está ultrapassado. Hoje em dia, um homem com alguma habilidade e gosto, amanha muitos hectares de vinha sozinho numa propriedade agrícola. Porque as máquinas estão preparadas para fazer a maior parte dos serviços. Agora as podas e as empas, isso é que tem de ser feito à mão, porque daí resulta uma melhor produção dos vinhos. […]

Hoje em dia, um homem com alguma habilidade e gosto, amanha muitos hectares de vinha sozinho numa propriedade agrícola.

 

Antes de passarmos para os vinhos, perguntava-lhe como é que olha para o panorama da agricultura no concelho de Torres Vedras?

A agricultura no concelho de Torres Vedras nunca deixou de ser dinâmica. Teve decréscimos de qualidade, agora está num topo muito alto. Este povo de Torres Vedras, desta região… Não sei se é por estarmos próximos do mar e pela temperatura que temos, que também é ótima. Só sei que aqui a pulga “não morde no pelo” do agricultor. Aqui as pessoas são dinâmicas. Em tudo o que seja, até mesmo em áreas totalmente diferentes, somos uma região que dá exemplos ao mundo. A nossa região é uma região de excelência. […]

 

Há alguns anos, o afastamento dos jovens da agricultura era uma preocupação. Recentemente, as coisas mudaram. Também sente essa mudança aqui em Torres Vedras?

Sinto. Acho que estamos num tempo de mudança e que é atempada. Converso com muitos jovens aqui na Escola Agrícola de Runa, vejo o interesse que eles têm e, para mim, é uma esperança muito grande de que teremos continuidade, pela via moderna, de como se faz uma agricultura de topo. Que é o que já fazemos no nosso país, essencialmente na região do Oeste. Temos zonas, como o Alentejo, em que foram os homens do Oeste que para lá foram há 40 ou 50 anos e que por lá ficaram. Foram para lá enxertar e plantar vinhas. Portanto, o povo do Oeste não está só no Oeste. O país tem outras regiões onde muito do sucesso passou pela criatividade das pessoas desta terra.

Uma criatividade que, fazendo o contraponto entre os jovens dos dias de hoje e o seu início no mundo dos vinhos, também marcou o seu início nesta área.

Também. Quando comecei tinha 29 anos, portanto era um jovem e comecei exatamente por procurar uma adega cooperativa que tivesse a melhor das qualidades para poder abrir lojas na cidade de Lisboa. Em 1976 abri em Alfama a minha primeira loja, no dia 11 de abril, e no decorrer desse ano abri mais sete lojas para vender vinho a granel. Nessa altura tínhamos só o engarrafado da Adega Cooperativa do Cartaxo, branco e tinto, e os garrafões e o vinho a granel - que vendia na ordem dos 150 mil litros de vinho por semana. […]

Houve, no tempo em que eu comecei, a ideia de que Lisboa não estava perto de nenhum dos sítios onde havia grandes vinhos. Eu tinha de dar à população da cidade de Lisboa o conhecimento daquilo que o país tinha. Então comecei a trabalhar, em 1976, com 42 adegas cooperativas. […] Penso que faço parte da inovação de hábitos de consumo em Lisboa, porque noutros tempos, as pessoas que queriam vinho iam buscar um ou dois litros à taberna. […] Durante muitos anos, a possibilidade de se levar cinco litros de vinho para casa pelo valor de 40 escudos foi novidade. 40 escudos era o que custava um garrafão de vinho. Mais barato do que nas tabernas e de muito melhor qualidade.

Vítor Napoleão

O vinho da região de Torres Vedras é, de facto, um dos pontos fortes da produção agrícola na região?

Sim, não há dúvida nenhuma. O vinho é uma coisa de grande importância na nossa região. E depois, o vinho tem aqui um cabimento muito grande, porque os nossos solos são ricos em tartaratos [componente do solo que dá origem ao ácido tartárico, composto orgânico que confere qualidade ao vinho, inibindo a sua oxigenação], o que faz com que as videiras transmitam aos bagos e ao vinho a tão grande e rica qualidade que temos em envelhecer vinhos. Mantêm-se dinâmicos, jovens, por muitos e longos anos dentro de uma garrafa. O que não acontece na maioria do país, porque os solos são pobres em tartaratos. […]

 

Falámos em pontos fortes e estamos num ano em que Torres Vedras partilha com Alenquer o título de “Cidade Europeia do Vinho”. Além de todo o processo em torno da distinção, também fez parte de um vídeo promocional. Como é que foi esta experiência?

Foi uma experiência extremamente interessante, estive com gente muito simpática. E o certo é que se fez, vencemos e somos merecedores disso. Sinto-me orgulhoso pelo facto de também ter ajudado a que isso tivesse acontecido. Mas acho que foi o início de uma mudança na região, de sermos mais conhecidos no mundo, o que é muito bom. […] Este ano está quase passado, mas temos feito muita coisa e acho que o que falta fazer vai completar o tão bom trabalho que tem sido feito no país pela nossa região.

 

Há espaço no mercado para os Vinhos de Lisboa?

Há muito espaço no mercado para os Vinhos de Lisboa. Os Vinhos de Lisboa são a pérola linda deste país neste momento. Eu acho que as pessoas que habitam nas outras regiões onde existem CVR’s [comissões vitivinícolas] devem sentir pena de não viverem nesta região. Criar o nome Vinhos de Lisboa foi uma coisa que chocou muita gente, mas que acho que neste momento toda a gente está altamente agradecida a quem teve esta belíssima ideia. Lisboa tem cada vez mais gente à procura dos vinhos da Cidade Europeia do Vinho e da CVR Lisboa, porque são vinhos que passaram a conhecer e de que estão a gostar muito. São taninosos. São vinhos com vida. Aqui há uns anos disse que os nossos vinhos são másculos, rijos, que é necessário as pessoas passarem a gostar deles porque acabam por sentir sabores que não encontram nos outros. Têm uma característica diferente dos outros, talvez pela nossa localização, pelo facto de termos uma região de origem vulcânica. […] Em Torres Vedras não temos nada para nos envergonhar, temos tudo para nos sentirmos bem por cá vivermos.

Os Vinhos de Lisboa são a pérola linda deste país neste momento.


As exigências, as necessidades e os gostos de consumo aos dias de hoje são bastante diferentes. Como é que se procura dar resposta às exigências do mercado?

Os nossos enólogos já têm tanta qualidade naquilo que fazem, que não é minimamente difícil. Acho que é um estímulo muito grande para um enólogo ganhar um prémio. Ele continua a fazer cada vez melhor. Porque os vinhos também têm uma qualidade que lhes permite fazer melhor. Há alguns anos, um enólogo tinha de ser um cientista, porque recebia uvas de má qualidade e tinha de transformá-las em muito boas. Hoje, as uvas são muito boas e facilitam o trabalho do enólogo. […] O consumo é que vai tendo surpresas ao ver coisas tão boas que se estão a fazer. Porque cada vez mais conquistamos, em países estrangeiros, grandes prémios para vinhos nacionais. Isto é capaz de fazer uma certa “mossa” nos países que eram considerados os “grandes” dos vinhos. Mas paciência, nós estamos cá para aquilo que der e vier.

cada vez mais conquistamos, em países estrangeiros, grandes prémios para vinhos nacionais


Esta é uma indústria que geralmente é vista como muito conservadora. Porque é que acha que o grande público tem esta ideia?

[suspiro] Olhe… Não sei. Eu acho que o grande público está a olhar para esta indústria como até gostando de poder cá estar, mas não estando. A agricultura é uma coisa que as pessoas têm de olhar com muito carinho. [pensativo] Já lá vão os anos em que se olhava para a agricultura como se vivesse à base de subsídios. Hoje em dia as coisas já não são assim, até porque os subsídios têm sido para a modernização das estruturas das vinhas, das máquinas agrícolas, de tudo aquilo que faz com que ela realmente se desenvolva e tenha a projeção que tem neste momento. […]

 

Há alguma fase do processo de produção de vinho que mais o fascine?

Eu acho que é tudo muito bonito. O vinho quando está a ferver e vai à taça, quando aquela rama muito bonita encarnadinha está ali a borbulhar durante alguns minutos e depois volta a entrar dentro da cuba… É muito bonito. Tenho muita gente amiga que vem aqui nessa altura para ver esse fenómeno. Porque ninguém está a fazer nada para que assim aconteça. São os gases que se acumulam dentro da ânfora que impulsionam o vinho para sair por um tubo, que por sua vez vai entrar noutro tubo e acaba por cair em “chapéu-de-chuva” por cima das massas para as lavar. Isso é muito interessante e é menos penoso do que a vindima em si. […]

 Vítor Napoleão

Ao contrário daquilo que muita gente possa pensar, a sua vida não foi totalmente dedicada ao vinho.

Pois não. […] Fiz uma parte do curso comercial e depois fui trabalhar para uma área de pronto-a-vestir. O meu avô tinha lojas em Torres Vedras e em Lisboa e eu por cá estive e por lá fui. Andei sempre misturado na linha do pronto-a-vestir, das modas, da fábrica de confeções que nós tínhamos com 200 mulheres a produzir moda jovem, essencialmente moda de homem. Tínhamos cinco estabelecimentos de pronto-a-vestir na cidade de Lisboa, onde também estive durante algum tempo. Depois só venho parar à parte agrícola porque, ao ter o meu pai já com alguns anos e não tendo irmãos, tive de abraçar aquilo que era meu, porque não podia pensar que isto tinha de ser vendido. Tive de mudar de vida e de passar a saber como é que a agricultura se fazia. E com toda a minha vontade e a minha “genica”, por cá ando, muito satisfeito por cá estar.

 

Tive de mudar de vida e de passar a saber como é que a agricultura se fazia.


Para terminar perguntava-lhe, precisamente, como é que olha para toda a sua carreira?

Talvez tivesse saltitado um pouco mais do que devia. Por umas vezes penso assim, por outras penso que fiz muito bem ter feito tudo o que fiz. Até porque em nenhuma das fases da minha vida me sinto insatisfeito por onde estive e pelo que fiz. Há uma fase que eu não vos contei, em que comecei a criar animais acabados de nascer, com quatro/cinco dias. Construíram-se instalações para isso e eu fazia na ordem das 600/700 cabeças de animais que vinham de Vagos, do Alentejo, do Algarve. Eram animais acabados de nascer que depois vendia aos seis meses de vida. […] Os que tinham mais quilos e eram mais saudáveis ficavam cá. Os restantes, vendia aos agricultores da região. […]

 

É uma vida cheia.

É uma vida cheia de muita coisa e com muitos amigos. É uma vida muito linda. Sinto-me bem de saúde e muito feliz por estar na missão que tenho. […] Ir resistindo, com estas idades, é bom. Porque pode ser que apareça uma luzinha ao fundo do túnel e que nos diga assim “olha, há uma maneira de resolver o problema de quem é que vai continuar esta casa.” Se não aparecer, quem cá fica que feche a porta, como diz o outro. [risos]


Onda de calor: quatro dias de “flagelo” nas vinhas

Acho que ninguém esperaria que houvesse tanto calor e que as coisas acontecessem como aconteceram” diz Vítor Napoleão sobre a onda de calor que marcou o início de agosto. “Foram quatro dias de um grande flagelo. A terra reteve energia ‘com fartura’ e a seguir expeliu, apanhando os cachos por baixo e cozendo-os. E a outros secou-os mesmo” explica, para depois dizer que este foi um fenómeno que nunca tinha visto. “Só daqui por 365 dias é que podemos ter a retificação daquilo que correu mal este ano. Vamos ver se não irão morrer algumas cepas. Teremos de calcular muito bem e, naturalmente, até teremos de pensar em castas mais resistentes ao calor.