Torres Vedras

Histórias com Vinho - A Tanoaria

01.05.2018

“Uma vasilha de madeira tem outra agulha”

No ano em que Torres Vedras e Alenquer são Cidade Europeia do Vinho, convidamo-lo a ler a nossa rubrica “Histórias com Vinho”, pela qual pretendemos apresentar factos, curiosidades, ou histórias ligados a esta celebração. Nesta edição vamos tentar saber mais sobre a tanoaria e a razão pela qual o ofício a que se refere constitui uma forma de Arte. A “história” construiu-se à conversa com Manuel Crispim, talvez o último dos tanoeiros em atividade no nosso concelho e, nas suas próprias palavras, “dos últimos em todo o distrito”.

Para os mais novos segue a explicação de um ofício que dificilmente conhecerão: um tanoeiro é um artesão dedicado ao fabrico de barris, pipas ou tonéis para embalar, conservar ou transportar mercadorias, sobretudo líquidos. Através de uma pesquisa bastante rápida, podemos perceber que no concelho de Torres Vedras restam pouco mais de meia dúzia de pessoas que conhecem os segredos do ofício, mas poucos se dedicam à atividade.

O Sr. Manuel, de Casal de Barbas, diz que trabalha como tanoeiro “desde que nasceu e até agora”, já lá vão quase 78 anos. Era o negócio da família e com sete anos já fazia umas selhas pequenas. Agora diz-nos que já é mais complicado, mas não deixa a oficina onde labora desde 1982. Começou por trabalhar com o pai, depois com uns primos e chegou a ser empregado numa tanoaria em Torres Vedras e nunca teve outra ocupação.

Se antigamente o conhecimento era passado de geração em geração, a atualidade diz-nos que há já poucos que o possam transmitir e ainda menos os que o queiram adquirir. Com os avanços tecnológicos, as mudanças nos estilos de vida e o desenvolvimento de novas indústrias, temos assistido ao desaparecimento de muitas profissões e esta realidade aplica-se perfeitamente à de tanoeiro.

“Noutros tempos tudo era diferente! Havia uns em Runa que eram os Margaça, uma família de sete ou oito irmãos e o pai; havia também uns na Ponte do Rol, outros no Varatojo. Aqui em Casal de Barbas também havia mais. Em Mafra havia bastantes na Azenha dos Tanoeiros, mas a maior parte era ali de Bucelas.”

Poucos são aqueles que ainda sabem sobre os nós de uma madeira e atestar a qualidade da mesma para construir um barril ou outras vasilhas; os que usam peças de ferramentas como a “plaina de pé, a garlopa, o rebote, a enchó, a marreta e o chaço”, mas felizmente ainda vivem alguns. O Sr. Manuel, quando tem trabalhos maiores, conta com a ajuda de um tanoeiro de Bucelas, uma pessoa de 85 anos, tal é a dificuldade em encontrar mão-de-obra entre os mais jovens. Diz-nos que antigamente havia trabalho todo o ano, mas o “pico era ali na altura das vindimas, nos meses de junho até meados de outubro”, e que os anos 70 foram os tempos áureos da tanoaria. Nessa altura chegou a ensinar duas ou três pessoas e andavam “aí de quinta em quinta com a ferramenta às costas”.

Há efetivamente arte em todo o processo: começam por ser cortados os toros de madeira, transformando-os em réguas, as chamadas aduelas, desbastadas e ovalizadas. Segue-se o acerto das faces laterais e terminam-se com as aduelas a ser moldadas ao fogo e fixas com aros metálicos. A fase seguinte passa pelo acerto final das aduelas, a abertura do rasgo onde será encaixado o fundo do barril, o enchimento dos intervalos… “Antigamente era tudo à mão, mas agora já temos a motor”, confidenciou-nos o Sr. Manuel. Assim se constrói um barril (até 100 lt), a cartola (até 600lt), um casco (a partir dos 600 lt) ou tonel (a partir dos 1000 lt). “Se levar 10 mil litros é uma cuba”. O tempo de construção de uma vasilha depende sempre da madeira e depois, como nos disse o Sr. Manuel, se é feito por novos ou velhos. “Os velhos demoram sempre mais um bocadinho”.

“A tanoaria está em vias de extinção”. A maioria dos tanoeiros que resta dedica-se agora a criar peças ligadas ao artesanato, com cariz etnográfico, a pequenos arranjos ou à manutenção de recipientes existentes, mas o Sr. Manuel ainda acredita que lhe vai chegar alguém novo à oficina, alguém que ele possa ensinar. Entretanto dedica-se a fazer pequenas vasilhas para aguardente, que vende na sua banquinha da nossa Feira Rural, no Largo de S. Pedro.

Alguns vinicultores, sobretudo com adegas particulares, começam, no entanto, a privilegiar a produção de vinho em vasilhas de madeira, em vez do aço inox. Explica-nos o Sr. Manuel a este propósito que “a vasilha de madeira tem outra ‘agulha’ porque cria o sarro, que é a mãe do vinho. É tal e qual como quando bebemos um copo de vinho em jejum, não temos paredes e o vinho que vai para o aço inox é igual… arrefece completamente”. Por esta razão disse-nos que tem havido uma maior procura de cartolas em adegas para fazer os lotes do vinho.
O problema não está na falta de trabalho, mas antes na “falta de pessoas que saibam fazer uma vasilha do princípio ao fim”.

Diz-se que enquanto há vida há esperança… Neste caso a esperança que o saber dos tanoeiros não se perca para sempre.


Andreia Correia

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