Torres Vedras

Padre Vítor Melícias

01.11.2016

O padre Vítor Melícias, um dos torrienses mais mediáticos e conhecidos nacional e internacionalmente, está desde há pouco tempo a residir permanentemente no convento do Varatojo. Com 78 anos regressa assim à sua terra, depois de uma vida pelo mundo e de nos últimos nove anos ter desempenhado as funções de ministro provincial português da Ordem Franciscana. Aceitou com a amabilidade que lhe é reconhecida o convite da [Torres Vedras] para uma entrevista, na qual passou em resumo o seu itinerário de vida, para além de ter abordado outras questões como o momento atual da Igreja e do mundo e o futuro da Humanidade, o qual vê “com muita dificuldade”, mas também “com muita esperança”…

Que balanço faz dos nove anos em que desempenhou as funções de ministro provincial português da Ordem Franciscana?

Bom, ao longo dos anos em que tenho estado na Ordem Franciscana, tenho desenvolvido uma atividade muito variada, desde professor a proclamador da Palavra, e servidor na sociedade civil, e nos últimos nove anos tive como principal atividade ser o provincial desta fraternidade. Os momentos que hoje vivemos são mais difíceis, porque já não somos tantos frades como em outra altura, somos cerca de 100, existem muito menos vocações, e, portanto, a nossa atividade já não é tão extensa como era, mantendo no entanto ainda uma grande amplitude, embora contando com menos pessoas, uns que estão mais idosos, com menos saúde, e outros que estão sobrecarregados de trabalho. Todavia o meu balanço é extremamente positivo, por ter contado e continuar a contar com um número tão generoso de irmãos, bem preparados, muito generosos, que não se negam ao trabalho, e fazem hoje em Portugal e no resto do mundo onde estamos um trabalho verdadeiramente sensacional. É gente que se tem atualizado, na linha do Concílio Vaticano II, que está sempre disponível para todo o tipo de serviço dentro da Igreja, e que mantém uma atividade variadíssima, desde professores nas universidades, a párocos, pregadores, pessoas ligadas a variadas atividades sociais, de solidariedade, junto dos idosos, dos doentes e das crianças.

(…) O mundo não vive hoje conduzido por valores, mas por interesses (…)

Recuando um pouco mais, nomeadamente à sua infância, perguntava-lhe como foi o seu chamamento para a vida religiosa?

Bom, eu nasci no Ameal, e na paróquia havia uma educação cristã de raiz, éramos famílias cristãs, frequentávamos plenamente a vida religiosa da aldeia, o nosso pároco, padre Joaquim Rebelo, que Deus tenha, era um verdadeiro padre, um cura de aldeia, estimava as pessoas, era muito estimado, ajudava os pobres, era de facto um homem que atraia muito e muito nos impulsionava. Além disso, tinha na minha família o irmão do meu pai, padre Fernando Félix Lopes, que era frade franciscano, e que foi também provincial, uma figura muito conhecida em Portugal, foi um académico ilustre da Academia Portuguesa de História, que lhe publicou inclusivamente em três volumes toda a sua obra, e fez despertar em mim desde o tempo da escola a vontade de ser padre. E assim fui para o seminário, aliás, com o apoio de benfeitores, que naquele tempo se usava muito para ajudar os estudantes pobres, e eu era de uma família pobre. Professei aqui no Varatojo, depois estive em Leiria onde fiz o curso de Filosofia, em Lisboa fiz o curso de Teologia, depois fui para Roma onde me formei em Direito Canónico e ao fim desse período voltei para Lisboa, onde fiz Direito Civil, na Faculdade de Direito, aliás com o atual presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Braga Macedo, Leonor Beleza, entre outras personalidades. Foi um tempo extremamente belo. Depois disso, e já durante o curso de Direito, comecei a ensinar, fiz uma vida também de ensino, ensinando Direito Canónico, Filosofia do Direito ou mesmo Ética Social. Além disso, desde cedo pus-me ao serviço da sociedade civil em várias áreas: comecei pelos migrantes, fui inclusivamente um dos fundadores do jornal “O Emigrante” que se chama hoje “O Mundo Português”, mais tarde fui presidente da Caixa Central de Segurança Social dos Trabalhadores Migrantes, presidi a 14 delegações para negociar acordos de segurança social e de proteção aos nossos trabalhadores lá fora, enfim, envolvi-me plenamente no mundo da migração e dos refugiados, que é hoje de grande atualidade. Aliás, mais tarde, quando fui vice-presidente do Conselho Económico e Social português tratei logo desse tipo de temas. Em Bruxelas, onde representei durante 10 anos o país e as instituições de solidariedade social, designadamente as misericórdias, no Comité Económico e Social Europeu, que é uma das grandes instâncias da União Europeia, também me dediquei particularmente aos temas dos emigrantes, da solidariedade social, dos pobres e dos refugiados. Portanto, a minha vida e a minha vocação nasceu assim e projetou-se neste mundo dentro do ideal franciscano.

(…) A Terra e todo o Universo é uma casa comum que temos a obrigação de preservar (…)

Deus chamou-me entre outras coisas para essa atividade na sociedade civil. De maneira que fui também bombeiro voluntário, primeiro, fui segundo comandante dos bombeiros voluntários de Lisboa, depois, fui presidente da direção, presidente da federação dos bombeiros, da liga dos bombeiros, presidente do serviço nacional de bombeiros, em cuja criação tive ação determinante, e hoje sou presidente honorário dos bombeiros portugueses. Aconteceu a mesma coisa com as misericórdias, fui presidente nacional e internacional, hoje sou também presidente honorário das misericórdias. No mutualismo aconteceu exatamente a mesma coisa, fui presidente nos vários escalões inclusivamente internacionais e hoje sou também presidente honorário. É claro que nestes percursos tive contactos com os políticos, sobretudo das gerações mais novas.

Quando estava na Faculdade de Direito constituímos inclusivamente um grupo que ficou depois bastante conhecido, que é o chamado Grupo da Luz, onde estavam jovens muito talentosos como o engenheiro António Guterres, hoje eleito secretário-geral das Nações Unidas, o já citado professor Marcelo Rebelo de Sousa, várias pessoas que foram ministros como o Miguel Beleza, o Diogo Lucerna, várias personalidades. De maneira que daquele grupo surgiram coisas muito interessantes, como por exemplo a Associação de Defesa do Consumidor. Depois, participámos na criação do Centro Português dos Refugiados, na criação da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima e estivemos no início do lançamento da SEDES. Participámos em variadíssimas coisas, mesmo da área política, embora eu pessoalmente nunca tenha feito opções políticas. Não tenho filiação política partidária, mas tenho, isso sim, um envolvimento pessoal intenso com tudo aquilo que sejam causas sociais e de luta pela justiça, o que às vezes exige que assumamos também posicionamentos políticos.

Em todo esse seu percurso teve pessoas, personalidades, referencias, que o tenham influenciado de forma particular?

Sem dúvida. Para além de S. Francisco de Assis, também aqueles padres franciscanos que em Montariol, Braga, defendiam os ideais da liberdade, da democracia. Além disso, o meu próprio tio, que era um homem extremamente erudito, e que muitas vezes também falava comigo, tinha muito apreço pelo António Sérgio, e por aquele ideal da Metanoia, que era um grupo de reflexão social e política, que me transmitiu exatamente os mesmos ideais, o mesmo tipo de formação, que hoje corresponde no essencial aos grandes princípios da Doutrina Social da Igreja: a solidariedade, a subsidiariedade, e o destino universal de todos os bens. Tudo aquilo que existe é de todos e para ser utilizado por todos, a ponto de quem primeiro tem direito de utilizar uma coisa é quem dela mais necessita e não o seu imediato proprietário. É uma filosofia cristã antiga e muito franciscana. Santo António de Lisboa e muitos outros grandes pregadores franciscanos sempre defenderam isso, faz parte daquilo a que se chama hoje a economia franciscana de que eu sou, quer a nível português, quer a nível internacional, um dos defensores e promotores. Uma economia de solidariedade, no fundo, uma economia de comunhão. E, portanto, com esse tipo de formação, tive esses homens em primeiro lugar como grandes referências, e depois outros como o Papa João XXIII, o Papa Paulo VI, e agora o Papa Francisco.

Como vê o momento atual da Igreja, agora com este novo papa?

Vejo como um momento de grande desafio, porque o mundo está completamente desgovernado. O mundo não vive hoje conduzido por valores, mas por interesses, dos mais variados. Nós vemos aquilo a que o papa Francisco chamou já uma guerra mundial aos bocadinhos. Eu pessoalmente defino-a como uma guerra mundial deslocalizada. Assim como se deslocalizam empresas por interesses capitalistas, também se deslocalizam guerras mais ou menos pelos mesmos interesses. Este tipo de mundo em que nós vivemos é um mundo de grandíssima insegurança, de enorme instabilidade. E a Igreja enquanto povo de Deus, enquanto mundo de crentes, que acredita que somos todos irmãos, que podemos viver em paz, em justiça, não pode neste momento sentir-se tranquila. A missão da Igreja torna-se mais imperiosa e também mais difícil, vive um momento de necessidade do Espírito Santo e de necessidade de profetas, como Teresa de Calcutá, gente generosa, gente que lida com os pobres. Há dias o Papa Francisco também disse e muito bem: estão a querer fazer disto guerras religiosas. Mas não são.

As religiões não podem combater-se, as religiões são movimentos de paz. Agora, quem tem interesse em que haja guerra é quem promove símbolos, falsas motivações e guerreiros religiosos para se contraporem uns aos outros. A Igreja tem também esse enorme desafio, de ser promotora, como foi S. João Paulo II e como tem sido o Papa Francisco daquilo a que se chama “o espírito de Assis”. Aliás, o teólogo Hans Kung, que tem até sido promotor de movimentos neste sentido, disse e bem que não haverá paz no mundo se não houver paz entre as religiões, entre as igrejas. Por isso, antes de mais, entre cristãos, entre as próprias igrejas cristãs, pelo movimento ecuménico, deve-se estabelecer a harmonia, a paz. Portanto, a Igreja movida pelo espírito do Evangelho e por S. Francisco de Assis, deve protagonizar a consciência de que nós somos todos irmãos, nós somos irmãos de todas as coisas, o mundo em que vivemos é uma grande casa comum.

A Terra e todo o Universo é uma casa comum que temos a obrigação de preservar, não deixar estragar, não deixar poluir, não deixar dinamitar, como quase estamos a fazer, quase a fazer explodir o mundo. Isto tem de parar. E como é que isso para? Só pela conversão das pessoas, de entenderem que nós somos todos irmãos no respeito uns pelos outros, na harmonia do pluralismo construirmos a unidade da grande família humana. E da mesma maneira na economia. O mundo não pode ser conduzido pelo dinheiro, pela banca, pelos interesses e critérios financeiros, e, muito menos, financistas, tem de ser conduzido por outro tipo de valores. Obviamente que há regras, cada setor da vida tem as suas próprias regras, respeitemo-las, mas sempre tendo atenção do que se trata.

Quando me escolheram para dar o nome a um agrupamento de escolas aqui de Torres Vedras, resignei-me a consentir não por qualquer relação a mim mas aos valores e às causas que o meu nome pode evocar, por nelas me ter envolvido tanto, como bombeiro, nas misericórdias, na solidariedade e na paz. Dou Graças a Deus de ter tido a possibilidade e de continuar ainda a participar na vida da comunidade torriense e hoje de uma maneira diferente daquela com que participava antes porque passei parte da minha vida em atividades por esse país fora ou mesmo no estrangeiro.

Como foi vendo a evolução da sua terra ao longo destas décadas em que esteve fisicamente mais afastado, em que não teve um contacto tão permanente como tem agora?

Fui mantendo esse contacto através do jornal da nossa terra, mantendo a ligação exatamente às instituições cá da terra, e sobretudo às pessoas amigas. Gosto muito desta terra e desta gente. Considero que Torres Vedras é uma gente hospitaleira, que cria espaços de convívio, espaços de humanidade, isso é muito positivo, e oxalá eu possa também continuar a dar colaboração para que as “Torres Velhas” continuem a ser um símbolo não só de luta pela liberdade, como foi com Wellington e as Linhas de Torres, não só de luta pelo trabalho, como tem sido efetivamente uma terra laboriosa, mas sobretudo uma terra de harmonia, de paz, onde quem vem seja muito bem-vindo, e possa ter a certeza de que é muitíssimo bem recebido. Aliás, Torres Vedras continua a ser uma terra de progresso e com iniciativas de modernidade e grande futuro. Assim, ainda recentemente foi reconhecida como primeira cidade portuguesa a integrar a Rede Europeia de Cidades de Economia Social e, seguramente, virá também a desempenhar um papel pioneiro na nova e tão promissora Economia Circular. Por tudo isso e porque é a minha terra, que sempre amei, escolhi agora regressar, precisamente para o Convento do Varatojo, desde 1474 centro e símbolo da presença franciscana em Portugal, no nosso Oeste e nas Missões da lusofonia.

(…) Torres Vedras continua a ser uma terra de progresso e com iniciativas de modernidade e grande futuro (…)

O senhor padre tem histórias, peripécias, de infância, do tempo em que vivia permanentemente aqui no concelho e onde está a viver outra vez?

Tenho histórias que marcam a vida das pessoas. Aliás, a minha vida é cheia de histórias. Histórias de uma família em que éramos irmãos muito unidos, de um pai e uma mãe muito generosos e trabalhadores e das dificuldades que às vezes tínhamos mesmo do alimento e do vestir. A roupa passava de uns para os outros e não era tanta quanto isso, e o alimento também era limitado e escasso. Comer carne era só no dia das festas. Recordo-me de uma vizinha nossa que já tinha os filhos criados e quando fazia o pão passávamos pela casa dela. Recordo-me de muitas histórias dessas de solidariedade entre as pessoas. Era o tempo da guerra, do racionamento do pão, em que tínhamos medo, púnhamos umas tiras claras nos vidros com medo das bombas que podiam cair de noite, apagávamos as luzes para que não fossemos vistos pelos aviões. Havia muita mortandade infantil. E toda a minha vida foi marcada por episódios como estes. E se luto e lutarei sempre pela justiça social, para que haja oportunidades para todos, é porque vivi demais situações de pobreza, mas também de muita solidariedade ou minhas ou daqueles que estavam ao meu lado.

Como vê a ação e a postura dos cristãos neste mundo em mudança tão rápida?

Vejo como um grande desafio, com a necessidade de nos conduzirmos pelo Evangelho e não pelo interesse dos outros. Conduzirmo-nos na vida como os outros, fazermos como se dizia já no princípio do cristianismo na carta a Diogneto, sermos cidadãos como os outros. Comer, beber, trabalhar, casar e ter filhos como os outros, mas vivendo naquilo que se dizia então, uma república espiritual. Ou seja, o nosso espírito, as nossas motivações, serem diferentes. Não vivermos só preocupados com a nossa saúde, o nosso bem-estar, mas vivermos preocupados com a felicidade dos outros. Contra a pobreza, a favor da justiça, a favor da liberdade, a favor do respeito mútuo, do pluralismo, até religioso e de fé, como falei há bocado, isso é que é o grande desafio para todos nós.

Vê o futuro de forma risonha?

Vejo o futuro com muita dificuldade, mas com muita esperança. Eu sou um bocado como o Jean Monnet quando quis fazer a União Europeia, chamaram-lhe otimista, mas ele contrapôs dizendo que era determinado. Eu não tenho razões para sem alguma ilusão acreditar que isto vai mudar tudo para bem. Acreditar apesar de tudo que este mundo tem salvação.