Torres Vedras

Sérgio Cosme

01.05.2016

Sérgio Cosme é um surfista e piloto radicado em Santa Cruz que faz parte da comunidade local ligada aos desportos de ondas. Recentemente aliou estas duas atividades e começou a trabalhar no mar da Nazaré, na área do resgate dos surfistas que desafiam as ondas gigantes desta zona da costa portuguesa já conhecida a nível mundial.

À [Torres Vedras] Sérgio Cosme falou desta experiência, do seu percurso, das potencialidades de Santa Cruz ao nível dos desportos de ondas e de questões relacionadas com a segurança balnear. Depois de muitos anos a enfrentar situações de risco, o valor da vida humana é para Sérgio Cosme um bem incalculável…

 

(...) salvar uma vida é uma coisa que não tem explicação (...)

 

Começava por te questionar sobre como entraste no mundo dos desportos de ondas?

Venho para Santa Cruz desde que nasci. O meu avô comprou aqui uma casa há 50 anos e por isso desde sempre que passei aqui férias, sendo que cresci em Lisboa, mas a minha família é do Ramalhal. Então, sempre me habituei às praias de Santa Cruz e ao mar. Vem um bocado daí, desde miúdo que gosto de estar no mar, comprei a minha primeira prancha aos 14 anos e a partir daí nunca mais parei de surfar…

Fizeste sempre surf?

Sim. Gosto de todos os desportos de água e já surfei umas vezes com bodyboard, mas apenas para treinar quando estou a recuperar de lesões ou quando era muito novo e o mar estava muito grande e não conseguia ir lá com a prancha de surf.

E de onde veio o gosto pelo reboque de surfistas em ondas gigantes?

Eu sempre senti também a parte da condução. Desde os meus seis anos que conduzo motas, sempre tive essa parte de que não prescindo. Aliás, em 2007 fui vice-campeão nacional de Todo o Terreno na classe principal como copiloto. E essa atividade de reboque veio um pouco como arrasto do surf. Daquela situação de ver ondas grandes, de querer lá chegar e não conseguir, e nisso as motas de água são ótimas, ajudam a colocar-nos em ondas onde não conseguimos chegar com prancha, e depois vão-nos resgatar. Com as motas de água a segurança dos surfistas é muito melhor. E assim foi o melhor de dois mundos, conseguir conciliar a condução com o surf.

Quando começaste a ir para a Nazaré enfrentar aquelas ondas gigantes que se tornaram conhecidas a nível mundial?

Isso vem de 2013. Já fazia isso antes, não na Nazaré, mas nesse ano tive a necessidade de profissionalizar um bocadinho as coisas. Lá está, sabia andar de mota de água, sabia surfar, mas não tinha a técnica de resgatar e, na altura, com o meu instrutor, comecei a entrar em mar maior e foi então que comecei a entrar na Nazaré. A onda lá é excelente, é ótima, é muito desafiante conduzir na Nazaré, e estou perto, fica na zona Oeste.

Para além dessa atividade de resgate de surfistas também és nadador-salvador…

Comecei a ser nadador-salvador quando tinha um bar e para não estar a pagar a um nas folgas eu próprio fazia-as. Já tinha o gosto pelo mar, pelo resgate de pessoas, e salvar uma vida é uma coisa que não tem explicação, a pessoa pode agradecer muito, mas é algo que dentro de nós não tem explicação. Atualmente estou a fazer o curso de nadador-salvador mais para ter o conhecimento sempre em dia, nomeadamente de resgatar porque rapidamente posso estar a precisar disso na Nazaré.

Na tua opinião a segurança balnear tem tido uma evolução positiva de uma forma geral no país e mais particularmente no concelho?

Sim. Torres Vedras tem apostado nisso. No entanto a evolução dos nadadores-salvadores cabe ao ISN e não às câmaras. Há praias que não são vigiadas e a Câmara não deixa que não o sejam quando quem tem de pagar os nadadores-salvadores são os concessionários. Na Praia do Mirante não íamos ter ninguém a explorar o bar e era suposto que não haveria lá nadador-salvador, mas a Câmara encarregou-se disso. Na Ameixoeira aconteceu o mesmo. Acho que a Câmara tem apostado forte na segurança balnear.

O que te fascina nos desportos de ondas? É a adrenalina, o contacto com a água? O que te leva a tantas vezes, em dias que não são muito agradáveis, a trocares o conforto dos lençóis pelo frio da água?

É o desafio, a adrenalina, é a diferença entre a calma de estar lá fora no outside à espera que as ondas venham e a adrenalina de descer a onda, logo no momento a seguir passar-se do zero para o mil. É isso, é o meu gosto pelo mar…Basicamente é a paixão. Aliás, toda a minha vida tem sido o desafio e a paixão, mas hoje em dia acaba por ser também a necessidade. A necessidade de treinar, para me tornar cada vez melhor naquilo que faço.

Passas mais tempo na mota de água ou na prancha?

Tento fazer meio/meio. Até prefiro surfar, mas na realidade passo mais tempo em cima da mota de água…

Como é enfrentar um fenómeno da natureza como uma onda de 7, 8 ou 9 metros?

Não se desafia a natureza, convive-se com ela, senão ela engole-nos. Uma onda de 7, 8 metros é sempre assustador, mas para mim é algo que já começa a ser normal. Já subi um pouco a fasquia, e agora quando apanho ondas maiores do que essas e as coisas correm bem no final da surfada é muito bom, é gratificante…

Já tiveste alguma experiência de levar com um peso de água desses em cima e veres-te atrapalhado?

Graças a Deus na minha carreira nunca tive uma má experiência dessas. Quando levo com um “caldo”, como se diz na gíria surfista, dá-me vontade de rir, e a apneia, isso que acontece na altura, trabalha muito com o psicológico da pessoa. Nesses casos mesmo que uma pessoa esteja muito treinada, se o psicológico não funcionar, a coisa pode correr mal. Já vamos para a água preparados para essas situações e já cheguei a levar 3 coletes em dias de ondas muito grandes para estar preparado precisamente para isso.

Já como surfista ou banhista tiveste alguma situação complicada?

Já tive algumas, mas lembro-me particularmente de uma nos Coxos, em que apanhei um “set pirata” com uma onda grande, a prancha ter-se partido e só me lembro de ter olhado para o céu e pedir a um anjinho para olhar por mim e me ajudar a sair. Em Santa Cruz nunca tive muitos problemas porque conheço o mar, e sei que sozinho ou algumas vezes mais vale não entrar para não ter uma surpresa desagradável. Quando faço surf lá fora ou noutros sítios em Portugal, mesmo não estando a arriscar em termos de tamanho, acabo por arriscar um pouco porque não conheço tão bem o sítio e não sei onde estão as correntes que não são visíveis.

Sabe-se da importância dos surfistas na segurança balnear, mas o facto é que muitas vezes dentro de água também disputam ondas e andam aos empurrões quase como os ciclistas. Como é essa convivência dentro de água?

Eu vou responder nas duas vertentes: ondas pequenas e ondas grandes, porque realmente há diferença. Nas ondas pequenas há um bocado mais essa disputa, há muita gente dentro da água para o mesmo número de ondas. No mar grande já não há tanto isso.
Nas competições de ondas grandes, cá fora, com o marketing, com as marcas, há muita disputa, mas quando estamos na água isso passa tudo e vira uma equipa única. Dentro de água se alguma coisa corre mal, mesmo havendo 2 ou 3 equipas diferentes, corre mal para todos. Por isso há uma família. O Garrett McNamara, por exemplo, que é das pessoas que melhor conhece o mar da Nazaré, já foi diversas vezes buscar gente de outras equipas.

Como é conviver com essas estrelas do surf mundial como o Garrett McNamara?

São sempre experiências muito gratificantes porque são pessoas que têm muito conhecimento daquilo que fazem. O Garrett, como muitas outras pessoas conhecidas a nível mundial, é uma pessoa como nós. Qualquer estrela é uma pessoa como nós, tem os seus defeitos, as suas qualidades... Ele faz muita questão de falar com as pessoas e dar o seu conhecimento a quem quer aprender. É muito bom quando se está envolvido num desporto de que gostamos e essas pessoas ajudam-nos a todos os níveis, como na segurança, no marketing empresarial, no desporto em si, é ótimo.

Que momentos realças do teu percurso como surfista ou na área da segurança balnear?

Atualmente estou inserido no projeto do Garrett McNamara chamado Red Chargers e até hoje esse foi o ponto alto da minha carreira. Não tenho patrocínios, tenho alguns apoios como a SPO, a Atowinj, a BroCinema e a Inês Tralha GSGLove também me tem ajudado nos treinos físicos.

E em que consiste esse projeto exatamente?

Isto é um projeto para os surfistas que surfam ondas grandes na Nazaré, e que inclui cinco prémios. Para pessoas como eu é muito bom porque acaba por nos dar uma visibilidade que se não for inserido num projeto como este não conseguimos ter.

Que achas das potencialidades de Santa Cruz para os desportos de ondas? Achas que pode um dia vir a ter uma projeção como atualmente tem Nazaré ou Peniche, mas obviamente numa vertente diferente dos desportos de ondas?

Eu já tive algumas reuniões com o senhor presidente e tenho vindo a falar-lhe nesse sentido. Ao nível de onda é muito difícil compararmo-nos com o potencial que há aqui muito perto: Ericeira, Peniche, Nazaré. É muito difícil chegarmos a um conhecimento mundial, diria assim. Eu acho que Torres Vedras, nomeadamente Santa Cruz, deveria apostar muito na segurança, e tornarmo-nos uma das praias mais seguras de Portugal e com os melhores meios para resgate. Uma das ideias que dei por experiência própria é que aqui temos um dos melhores campos de treino para as ondas gigantes da Nazaré. É uma onda muito idêntica, embora mais pequena, em que não temos canal para sair, tem de se passar com a mota por cima da onda.

(...) A comunidade surfista de Santa Cruz tem vindo a crescer (...)

De qualquer forma temos o Ocean Spirit que é um festival que está consolidado e tem sucesso. Como encaras essa iniciativa que partiu da Câmara no intuito de dinamizar Santa Cruz na área dos desportos de ondas?

Acho que todas as iniciativas que tragam pessoas para Santa Cruz são ótimas, são bem-vindas. O Ocean Spirit hoje traz muita gente para Santa Cruz, o que é ótimo. Se um dia acabar esse evento vai um bocadinho do verão de Santa Cruz.

Como está atualmente a comunidade surfista de Santa Cruz? Há muita gente a surfar mesmo fora da época balnear?

A comunidade surfista de Santa Cruz tem vindo a crescer, estão a aparecer muitos jovens surfistas como está a acontecer em todo o mundo. Muitos amantes do surf estão também a aderir ao desporto, passaram de só ver o surf e comprar roupas de marca a fazer também surf.

Em termos turísticos, achas que Santa Cruz pode vir a crescer também com essa aposta nos desportos de ondas?

Sim, Santa Cruz tem uma grande variedade de coisas que podemos mostrar. Santa Cruz é muito bonito, não é só o desporto, não é só o mar. Eu acho que há sempre ideias novas, há sempre coisas que se forem discutidas por várias cabeças podem ser melhoradas.

Achas que os desportos de ondas e essa área em que trabalhas podem ter uma mais-valia em termos pedagógicos para as crianças e os jovens?

Sim, claro. Penso que o suporte básico de vida devia ser dado numa aula específica aos jovens, mas desde muito novos. O suporte básico de vida é uma coisa que não se faz só aos náufragos. Qualquer pessoa que passe ao pé de alguém que caia para o lado deve saber os procedimentos e conseguir acionar meios, e assim salvar uma vida. E isso em Portugal apenas algumas entidades como os bombeiros, ou os nadadores-salvadores, o sabem fazer, mas não é institucionalizado. Eu acho que é uma coisa que a nível mundial devia ser feito.

Salvar uma vida é algo de único, como diz o Óscar Schindler, na “Lista de Schindler”…

Sim, e como diz o formador do ISN Albano Viana, pior que perder uma vida é perder duas…

O valor da vida humana é algo que vocês sentem de muito de perto…

Claro, então nas ondas grandes ainda acabamos por sentir mais isso, porque qualquer onda pode ser a última onda da nossa vida, e então sentimos isso mesmo na pele. Mesmo o nosso pior inimigo não o queremos ver morrer à nossa frente, sabendo que o podemos ajudar.

Mas o estar mais perto da morte, faz com que se dê mais valor à vida ou a encarar a vida de outra forma…

Sim, isso sente-se muito quando se faz desportos radicais e temos piques de adrenalina muito fortes. Já saltei de paraquedas e é uma daquelas coisas em que se está pertinho da morte, ou quando se surfa uma onda gigante, sentimos que pode ser a nossa última onda, como já referi. São sensações indescritíveis que nos leva a dar muito valor à vida.

Agora que estamos perto de começar a próxima época balnear, gostarias de deixar alguma mensagem aos banhistas e aos praticantes de desportos de água?

Há sempre uma mensagem que eu passo às pessoas. Quando estão num meio que não conhecem, tentem-se informar, ou então que observem bem esse meio. Eu estou muito habituado ao mar, mas uma pessoa que não esteja não deve arriscar, deve falar com o nadador-salvador, que está familiarizado com o meio. Os nadadores-salvadores, que não estejam só a olhar para as miúdas e que olhem para o que se passa dentro da água e que façam um bom trabalho. Com uma diferença: as vidas dependem um pouco de nós, e se um nadador-salvador está a jogar raquetes ou a olhar para outro lado pode deixar alguém ficar lá dentro. Isso nunca me aconteceu e espero que nunca aconteça, saber que podia resgatar uma vida e que ela ficou lá, porque estava distraído ou por outra razão qualquer… 

(...) Não se desafia a natureza, convive-se com ela, senão ela engole-nos (...)