Agenda
Piano Exclusivo | Uncaged
Temporada Darcos 2026
10 de outubro de 2026 | sábado
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18h00 | 21h30
Local: Espaço Darcos, Av. Tenente Valadim, 10-B, Torres Vedras
Esta atividade integra o(s) programa Temporada Darcos 2026 - 19.ª edição
O concerto de hoje nasce de uma pergunta de Rui Filipe e Maria Barreto: “Como se pode descrever um concerto em que o piano também dança? Em que cada tecla batida é uma mudança de direção, sensação e emoção?”.
Piano e Dança revelam uma cartografia emocional da existência, onde a vida se apresenta não como linha contínua, mas como espiral, revisitação permanente daquilo que acreditamos ser, desejar e lembrar. Um torna-se extensão do outro, como se o instrumento respirasse e o corpo ecoasse, dois seres que se procuram numa linguagem antes da linguagem, ecoando as palavras de Isadora Duncan (1877-1927): “Se eu pudesse dizer o que significa, não precisaria dançar”. Cada tecla tocada é peso, direção, memória, e cada gesto desenhado no corpo devolve ao som, a respiração primordial que o gerou. Ambos percorrem três estados de existência: o amargo, o suave e o doce, não como metáforas, mas como estados mutáveis onde a vida se esculpe.
O concerto nasce num casulo embrionário, um lugar, estranheza que ainda não encontrou forma, o “terrível começo de tudo”, como dizia Reiner Maria Rilke (1875-1926), um território em que o ser é só impulso. À medida que o concerto avança, fragmentos dessa origem regressam como ecos, pedaços de seda rasgada ou recomposta, fios de memória, pequenas metamorfoses, que reencontram a pele do mundo e nos devolvem, a nós próprios.
A cena desenvolve-se em 360 graus, com o público em lua completa, eliminando fronteiras. O espetador torna-se corpo também: desloca-se, troca de cadeira, a cada transição entre blocos. Altera a sua própria geografia, reconfigurando o seu lugar no acontecimento, um recordar de que, existir é deslocar-se no espaço, tempo e no sentir. Também nós somos coreografia, mover-nos no espaço é mover-nos no significado. O primeiro bloco intitula-se Ciclo das Utopias. É o respirar inaugural, território de germinação. É a infância da possibilidade, onde o silêncio sustém o impossível e lhe dá espaço para nascer. A utopia não se apresenta como destino, mas como necessidade, não é horizonte inalcançável, mas impulso vital. Amargo e doce tocam-se, e o suave surge como breve repouso. O segundo bloco, Delírios e Libertação, assume-se como o direito ao excesso, a tensão entre desmesura e precisão, a urgência de romper as amarras invisíveis da forma. O piano é a voz interior desdobrada, procurando libertar-se das convenções e aparências. O corpo percorre um território de delírio lúcido, onde o gesto não ilustra, revela. Tal como Clarice Lispector (1920-1977) escreveu: “Há partes de mim que só se revelam quando me perco”. Perder-se é o começo da libertação.
O bloco final, Fios de Escuta, é o desdobrar íntimo do silêncio. A escuta torna-se forma de existir, o lugar onde o som desacelera o pensamento e abre clareiras. Um epílogo em que o doce não é evasão, mas lucidez; o suave, uma firmeza inesperada; e o amargo, conhecimento que deixa de ferir para iluminar, devolvendo-nos ao essencial. Como dizia Rilke: “A beleza é apenas o começo do terror que ainda conseguimos suportar”. Permanece a intuição de que a vida, como a Dança e a Música, constrói-se no diálogo entre vulnerabilidade e coragem. E, enquanto houver quem dance e quem toque, haverá sempre novas formas de inventarmos o que somos.
Rui Filipe, piano
Maria Barreto, dança
Nota: entrada gratuita, mediante inscrições.
Inscrições: info.darcos@gmail.com
Organização: Câmara Municipal de Torres Vedras, Teatro-Cine de Torres Vedras e Darcos - Associação Cultural
Atividade Gratuita



