João Brandão de Melo
12.03.2026
Em Torres Vedras, o Carnaval não se explica. Vive-se. Vive-se nas ruas, na liberdade e na memória de quem o construiu. Durante 25 anos, houve um rosto que atravessou gerações, corsos e histórias impossíveis de repetir. Entre 1966 e 1991, João Maria Brandão de Melo não foi apenas o Rei do Carnaval de Torres Vedras, foi um torriense que viveu o Carnaval por dentro e que ajudou a torná-lo eterno.
A revista municipal Torres Vedras esteve à conversa com João Brandão de Melo.
Ao longo destes anos, que memórias guarda da sua infância em Torres Vedras?
Aí a partir dos cinco, seis anos há um pronúncio para eu, um dia mais tarde, ser Rei. Os meus pais trajaram-me de príncipe. Nasci na Avenida 5 de Outubro, precisamente no sítio onde passa o corso. […] Também soube que houve em Inglaterra um Ricardo, Coração de Leão. E eu nasci em agosto, sou do signo de Leão. O rei da selva é o leão - o que mais me poderia acontecer? O meu pai foi presidente da Comissão de Carnaval desde fins dos anos 40 até 1962, e o bichinho andou sempre comigo. Levava-me para o guarda-roupa para Lisboa […], mas o que eu gostava mais era realmente ir ao estaleiro e ver os carros.
Antes dos 14 anos, eu mascarava-mede várias coisas. […] Dos 14 aos 18 anos, fiz parte do primeiro grupo em Torres Vedras, que animava o Carnaval e que hoje são os “Ministros & Matrafonas”. Dos 18 até aos 22, quando comecei a ser Rei, vesti-me já de várias coisas.
Sente que foi o Carnaval que moldou a cidade de Torres Vedras ou foi Torres Vedras que se moldou ao Carnaval?
Não. Não há dúvida nenhuma que o Carnaval é que moldou a cidade de Torres Vedras, e isso está à vista. Porquê? Nós vamos a qualquer ponto do país, fala-se em Torres Vedras e “ah, terra de Carnaval!”. É verdade, é terra de Carnaval. Fora do país é a mesma coisa: não há nenhum evento em Torres Vedras que traga tanta gente como o Carnaval.
Em 1966 começa o seu reinado: como é que surgiu este convite?
Eu já pertencia à Comissão de Carnaval. O meu pai morre em 1962, e em 1964 convidaram-me para entrar para a Comissão de Carnaval. Então, foi engraçado porque ia reunir e confraternizar com todos aqueles antigos amigos e colegas do meu pai.
Entretanto, como eu sempre tive 1001 coisas […] entenderam que eu era capaz de fazer de Rei e eu aceitei. A Rainha era o meu melhor amigo, que é o engenheiro José Abrantes, “El comandante”. E assim foi, comecei o reinado de 25 anos e mais dois.
E o que é que mudou em si ao longo destes 25 anos?
O que mudou, mudou para bem. Fui Rei durante 25 anos e estava habituado à interligação com o povo, brincar com o povo, meter-me com ele. E o Carnaval é isso. E ali andei durante 25 anos, [...] levava com cocotes, que nessa altura eram pesadíssimos, às vezes até os abriam para a serradura saltar. Depois de 1992 até agora, 1001 máscaras tenho vestido e tenho algumas historietas como Rei e principalmente fora, à civil.
E era aí que eu queria chegar: há alguma história insólita enquanto Rei?
No dia 28 de fevereiro [de 2026], vai ser o lançamento de um livro meu em que tem retratadas e até ilustradas a maior parte das histórias, umas como Rei e outras à civil, e principalmente em Lisboa. Porque isso é que me dá um grande gozo! Eu ia para Lisboa, só o ano passado é que não fui e este ano com a intempérie também não fui. Eu vou para Lisboa, mês e meio antes do Carnaval, sozinho, ao que eu chamo “o isolado solitário sozinho”. Vou para lá, na zona do Rossio, faço a Baixa de Lisboa toda, e é assim que eu brinco.
Às vezes vem a polícia, prende-me, apanho sustos, não apanho sustos […] e depois tenho também outras histórias na minha vida profissional e civil, em que já tenho apanhado assim uns sustos. Mas tenho uma história e essa tem um final fora de série. O protagonista foi a minha primeira Rainha, o engenheiro José Manuel Abrantes.
Íamos num carro que era um dragão, a cinco metros de altura e, nessa altura, não havia fibra ainda, os carros eram feitos de pasta de papel, cartão. Isto no Carnaval, apareceram cinco “betinhos”, três de um lado, dois do outro, com umas bengalas e o entretém deles era furar o carro. Nós começamos a chamar a atenção e eles diziam: “ah, venham cá abaixo que ainda levam com a bengala”. Nessa altura, vejo a Rainha [José Abrantes] armada em paraquedista. Salta dos cinco metros. E os três que estão do lado dele, desapareceram debaixo da saia, do saiote e do manto. Saltei para o outro lado, de qualquer maneira, e caí em cima deles. A Rainha levanta-se e diz assim: “ó senhor guarda, se faz favor, estes cinco elementos, rua com eles!”. E o guarda: “sim, senhor, vou já fazer isso!”. Alguma vez se viu, um homem mascarado de rainha dar ordens a um polícia? [risos]
Também foi considerado o primeiro surfista de Santa Cruz. Como é que nasce esta ligação a Santa Cruz?
Sou apaixonado pela praia e pelo mar. A minha mulher é de Cascais e tenho familiares no Estoril, de forma que ia para lá muita vez. Guincho, Carcavelos, zona de surf… olhava para aquilo e julgava que eram umas tábuas de engomar, em que eles andavam em cima. Entretanto, vim para Torres, tinha uns conhecidos meus em Peniche e eles diziam “se queres uma prancha, vem cá no fim do verão, que o material é mais barato”. E assim foi. Fui lá comprar uma prancha usada, meia escalavrada e custou mais de metade do ordenado do mês. A minha mulher zangou-se comigo nesse mês porque só podia contar com o ordenado dela e pouco mais. E foi assim que comecei a fazer surf.
Depois passei para o meu filho, o meu filho passou para os meus netos. É tudo gente ligada ao mar. […] Depois disto tudo, o menos desportista de todos ainda sou eu. O meu pai, que é da zona da Figueira da Foz, ainda tem lá em casa guardadas uma série de medalhas de remo e de natação. E assim é a minha vida: mar e terra, terra e Carnaval!
Estava a dizer que era o menos desportista de todos, no entanto, foi o mais destemido, que pega numa prancha e faz-se ao mar de Santa Cruz. O que é que o levou a fazer isso?
Eu gostava do mar. Tipo apanhar uma ondinha que vem ali, nem gasta gasolina, nem gasta eletricidade, vem ali em cima dela, não é? Mas nessa altura, claro, não fazia as evoluções que fazem hoje. [risos] Eu vir em pé direitinho na onda, na parte verde, já era muito bom. Depois, mais tarde, fui para o waveski. Entretanto, também fazia meias maratonas, maratonas e quando eu corria vinha muita vez de Torres para Santa Cruz. Quando passava pelo Paúl, Ponte do Rol, Casalinhos, Silveira, diziam: “Olha, lá vem o maluco das corridas”. Antes de casar, diziam assim “Um dia hás-de casar com uma gaivota”. Estava na praia em janeiro, fevereiro e março, de papo para o ar e as gaivotas a passarem por mim […] e fui buscar uma mulher ao mar.
Então, e pegando no surf e no Carnaval, queria saber se é possível estabelecer um paralelismo entre o espírito do surf e o espírito do Carnaval - como é que ambos o fazem sentir?
Olhe, fazem-me sentir bem das duas maneiras. Completam-se! E depois tem o Carnaval que é a minha descarga.
O livro As Aventuras e desventuras de um Rei do Carnaval reúne várias histórias do João ao longo destes anos. O preâmbulo, escrito pelo seu amigo José Abrantes, termina com a seguinte frase: “Bem-vindos ao reinado eterno de uma figura que jamais será esquecida”. E nesse sentido, eu gostaria de saber o que é que o João deixa ao Carnaval de Torres Vedras?
Deixo a minha real gana de ter governado com todos os foliões. E vou buscar um slogan que é “enquanto houver um folião na rua, o Carnaval de Torres continua!”. E quando chega à quarta-feira, para mim é uma tristeza.
E já agora, vou aqui buscar só um rabiscozinho que tenho, que é de uma famosa canção brasileira, que se chama A felicidade. A letra é do Vinícius de Moraes, o homem da Garota de Ipanema, e a música é de António Carlos Jobim. E esta parte que vou agora aqui ler é uma parte do trecho da canção completa, que diz assim:
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do Carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Para fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Para tudo se acabar na quarta-feira.
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
E isto comove-me porque é aquilo que eu sinto. Penso no outro Carnaval. O ano passado, assim que acabou o Carnaval, disse: “O próximo, que é este ano agora [2026], são menos dias. Porque no ano passado [2025] foi tarde e este ano é mais cedo. Não foram precisos 365 dias, foram menos e cá estamos”.
E viva o Carnaval de Torres!





