Conjunto Azulejar da Quinta da Cadriceira, Turcifal
30.03.2026
No Museu Municipal Leonel Trindade podem admirar-se cinco painéis de azulejos do início da segunda metade do século XVII, que fazem parte daquela que é hoje considerada uma das maiores obras da azulejaria figurativa seiscentista portuguesa.
Integravam um conjunto de cerca de três dezenas de silhares de azulejos que, pelo ano de 1665, Henrique Henriques de Miranda encomendou à olaria lisboeta de Manuel Francisco — mestre de louça pintada e um dos principais fornecedores da elite política do Reino — para decorar o imponente salão de banquetes da sua Quinta de Santo António, no sopé da Serra do Socorro.
Henrique de Miranda, tenente-general da Artilharia do Reino e camareiro-mor de D. Afonso VI, obtivera as quintas contíguas de Santo António e de Santa Margarida, na Cadriceira, por casamento com D. Guiomar Correia e Silva, filha de Rui Correia Lucas, anterior titular da Tenência Geral da Artilharia.
Em junho de 1663, no âmbito da Guerra da Restauração, Henrique de Miranda participou na Batalha do Ameixial e na libertação de Évora. Inspirado pelas vitórias obtidas, terá encomendado o grandioso conjunto azulejar, de múltiplas e vibrantes cores, com um programa iconográfico original e variado, que incluía cenas ora satíricas e jocosas, à base de macacarias¹, ora mitológicas e fabulosas, contendo elementos alegóricos clássicos, ora, ainda, exóticas e de cariz naturalista.
Por volta de 1830, a Quinta de Santo António seria adquirida pelo viticultor António Nunes dos Reis – pai de Jaime Batalha Reis – que, em 1870, a vendeu à Companhia de Jesus, não sem antes ter recolhido todos os azulejos e os ter levado para a sua residência, na Quinta da Viscondessa.
Com a morte de Batalha Reis, em 1935, os filhos dispersaram o conjunto. Em 1938, Celeste e Beatriz Cinatti Batalha Reis ofereceram cinco painéis ao Museu Municipal de Torres Vedras. Mais tarde, outros dois foram doados ao atual Museu Nacional do Azulejo. Os restantes painéis foram adquiridos por José Manuel Leitão, antiquário, que ao longo dos anos os foi vendendo a colecionadores particulares, nacionais e estrangeiros, incluindo os quatro exemplares expostos no Museu Berardo de Estremoz.
Conhecem-se hoje cerca de 20 painéis azulejares da Quinta da Cadriceira. Destaca-se a “Caça ao Leopardo” (MNA), classificado como Bem de Interesse Nacional, que reproduz uma gravura de Jan van der Straet (c. 1594-1598), bem como os painéis de macacarias que representam o “Casamento da galinha” – provável paródia ao casamento de D. Afonso VI com D. Maria Francisca de Saboia – e o “Assédio a uma fortaleza” – eventual representação satírica da libertação de Évora, em 1663.
Os painéis do Museu Municipal Leonel Trindade, de temática naturalista, representam animais exóticos, envoltos em vegetação: corça; papagaios esvoaçando entre cerejeiras; pássaros entre videiras e uvas; leopardo; e dromedário.
[1] Género decorativo, popular no Barroco, que utiliza a figura de macacos e de outros animais, que vestem e agem como pessoas para parodiar comportamentos sociais humanos.



