Elisa Henriques
04.11.2026
Há histórias que se contam com palavras. Outras ganham forma pelas mãos de quem sabe transformar a matéria em memória. No atelier de sua casa, na localidade do Aranha, em São Pedro da Cadeira, Elisa Henriques encontrou no barro uma forma de expressão que foi aperfeiçoando ao longo dos anos, tornando-se uma referência local na arte de trabalhar esta matéria.
Autodidata, Elisa começou por acaso, em 1992, por incentivo da filha - que durante muitos anos se dedicou à Azulejaria. Numa Feira das Freguesias, em Torres Vedras, viu um artesão a trabalhar o barro, comprou alguma matéria-prima e levou-a para casa. A primeira experiência resultou numa Nossa Senhora, mas a cozedura não correu bem e as peças rebentaram no forno. Elisa recorda que se sentiu triste e que foi a filha quem a incentivou a continuar: «Oh mãe, vai fazer outras peças!»
A partir daí, aprendeu através da experimentação e da persistência. Entre as mãos e o barro foi descobrindo formas, rostos, gestos e histórias, desenvolvendo um trabalho marcado pelo detalhe e pela expressividade. Muitas das suas peças representam seus familiares e pessoas da freguesia de São Pedro da Cadeira.
Muito crente, a temática religiosa ocupa um lugar de destaque na sua obra, a par da representação de personagens, como os bacocos, numa alusão a Baco (deus do vinho), e de diferentes momentos do quotidiano rural da freguesia: a cultura do trigo, a moagem nos moinhos, a produção de vinho, as vindimas ou a pesca na praia da Assenta. Os presépios assumem também especial importância em determinadas épocas do ano. Ao longo de mais de três décadas de trabalho, são já tantas as peças que criou que Elisa perdeu a conta.
A arte de trabalhar o barro cruza-se, assim, com uma tradição artesanal profundamente ligada à identidade de São Pedro da Cadeira. Ao longo do seu percurso, Elisa Henriques tem contribuído para manter viva esta herança, levando o nome da freguesia além do território, através da participação em feiras e exposições na Ericeira e em Lisboa. Entre os vários prémios, condecorações e menções honrosas que recebeu, destaca, com particular orgulho, a Medalha de Mérito - Grau Cobre, atribuída pela Câmara Municipal de Torres Vedras, à data presidida pelo Dr. Jacinto Leandro, no dia 10 de novembro de 2004, por ocasião das comemorações do Feriado Municipal.
Entre os trabalhos que marcam o seu percurso destaca-se um presépio composto por 67 peças em barro vermelho, apresentado em dezembro de 2009 no átrio do Edifício Multisserviços da Câmara Municipal de Torres Vedras e que foi adquirida pelo Município. Cada figura, modelada individualmente, revela a atenção da escultora aos pequenos detalhes.
O gosto pelas artes estendeu-se também à restante família. Em colaboração com o marido, António Bernardino Henriques - entalhador de arte sacra responsável por vários restauros de peças -, Elisa desenvolveu esculturas destinadas a igrejas e capelas, contribuindo para preservar uma expressão artística associada à história e às tradições da comunidade.
Hoje, Elisa continua a criar e restaurar por encomenda. O prazer de moldar o barro mantém-se. Nas suas mãos, o barro transforma-se em muito mais do que uma escultura: torna-se memória, identidade e património de São Pedro da Cadeira.




