Torres Vedras

Kazuo Dan

20.05.2026

Imagem de Kazuo Dan no Café Imperial, em Santa Cruz

No início da década de 70 do século XX, Santa Cruz recebeu um ilustre visitante oriundo do “país do sol nascente”, um episódio relembrado por meio de uma peça de arte pública instalada na Esplanada Antero de Quental, num local onde esse visitante muitas vezes contemplou o pôr-do-sol. E quem foi ele?

Trata-se de Kazuo Dan, um dos mais populares escritores japoneses do período pós-II Guerra Mundial, nascido a 3 de fevereiro de 1912, na província de Yamanashi (embora a sua família fosse originária da ilha de Kyushu). Dan teve o início da sua vida marcado por várias mudanças de residência, devido à atividade profissional do seu pai e também ao divórcio dos seus pais, um facto que influenciou fortemente o seu caráter. De facto, essa separação, a que se seguiu um período em que viveu com o seu pai em Ashikaga (na província de Tochigi), conduziu-o a uma vida solitária, em que procurava refúgio na natureza, o que era, no entanto, equilibrado com estadias em Yanagawa, a terra dos seus avós, onde contactava com gente extremamente comunicativa, levando-o a desenvolver uma personalidade aberta e hospitaleira. Tendo manifestado interesse pela leitura e pela escrita desde a sua infância, foi com 16 anos, no Liceu de Fukuoka, que Kazuo Dan iniciou a sua atividade literária (publicando poemas, romances e peças de teatro), não obstante ter prosseguido a sua carreira académica estudando Economia na Universidade de Tóquio.

Durante os anos em que frequentou o ensino superior viria a dedicar-se, em grande parte, à leitura de romances e a escrever nos círculos literários da capital nipónica, tendo nessa época lançado a sua carreira literária com a obra O caráter desta família.

Concluído o curso, Kazuo Dan entregou-se inteiramente à escrita, vindo em 1944 a receber o prémio literário Noma, quando se encontrava na China como correspondente de guerra de um jornal. Finda a II Guerra Mundial, retorna ao Japão e fixa-se em Yanagawa, tendo posteriormente voltado a residir em Tóquio. Em 1951 ganha outro prémio literário - o Naoki.

De referir que enquanto publicava romances e poesias, Dan viajou por países de vários continentes. Um deles foi Portugal. Descobriu Santa Cruz em 1971 e aí fixou residência durante um ano e quatro meses, num período em que se deslocou a um conjunto de países da Europa e de África. Em Santa Cruz fez amizades com habitantes da aldeia, alguns deles pescadores, que lhe traziam peixe que confecionava, servindo-o também em refeições de convívio, para as quais chegou a convidar estudantes japoneses que se encontravam em Lisboa. Um dos seus locais prediletos de convívio era o café Imperial. Cultivava flores e legumes, caminhava até à Praia de Porto de Vacas (zona sul da Praia da Mexilhoeira), onde nadava, e, ao pôr do sol, corria para o penhasco mais próximo, no qual gritava para o mar “Devolve-mo! Devolve-mo!”. De resto, em Santa Cruz, Kazuo Dan escreveu vários textos, sendo que um deles, um poema (um “haiku”) que homenageia essa localidade balnear, está inscrito na referida peça de arte pública.

Regressado ao Japão, passaria em 1972 a dirigir a revista literária Politeia. No entanto, sentindo-se doente e cansado da vida buliçosa de Tóquio, decide retirar-se para Nokonoshima (uma pequena ilha próxima da ilha de Kyushu), tendo em 1975 ainda recebido o prémio literário Yomiuri. Faleceria a 2 de janeiro de 1976, no hospital universitário de Kyushu (em Fukuoka), vítima de doença oncológica, sem cumprir o seu desejo de voltar a Santa Cruz, mas tendo conseguido finalizar o seu último romance – O Homem das Paixões. De referir ainda que também em 1976 foi atribuído a Kazuo Dan o Grande Prémio da Literatura Japonesa.

Publicado: 20.05.2026 - 14:07 horas
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