Professor Doutor Luís Ferreira - Reitor da Universidade de Lisboa
01.09.2026
A criação do Campus de Saúde de Torres Vedras representa um marco para o Concelho e para a região Oeste. Resultado de uma parceria entre o Município de Torres Vedras e a Universidade Lisboa, este projeto reúne ensino, investigação e prestação de cuidados de saúde, afirmando-se como um investimento estratégico no futuro do território.
Com a Faculdade de Medicina e, mais recentemente, com a integração da Escola Superior de Enfermagem, abre-se uma nova etapa na formação de profissionais de saúde, na inovação e na proximidade à comunidade. Para conhecermos a visão da Universidade de Lisboa para este projeto e o seu impacto nos próximos anos, a Revista Municipal esteve à conversa com o Professor Doutor Luís Ferreira, Reitor da Universidade de Lisboa.
O que é que representa para a Universidade de Lisboa a criação do Campus da Saúde de Torres Vedras, que integra a Faculdade de Medicina e o novo polo da Escola Superior de Enfermagem?
O papel da universidade é transformar as pessoas, transformar o país e, portanto, nós iremos fazer no local e onde for necessário. Fazemos em Lisboa, em zonas limítrofes […] naqueles sítios onde a nossa capacidade nos permite fazer com qualidade, com rigor, com transparência e com grande impacto na sociedade.
O que é que distingue este projeto de outras iniciativas que já tenham sido criadas pela Universidade?
Será diferente do ponto de vista daquilo que é a sua localização porque não tínhamos nenhum polo em Torres Vedras, mas é igual a tudo o que fazemos. Aquilo que pretendemos sempre é levar a educação superior, sempre aliada à investigação, a um maior número de portugueses, garantindo a transformação das suas vidas, das suas famílias, mas sobretudo, sempre a pensar no país. Aquilo que estamos a fazer em conjunto com a Câmara Municipal é para fazer alguma coisa que é grande naquilo que são os nossos propósitos e a nossa oferta. Não é uma sala de aula que vai estar lá. Vai estar lá todo um ecossistema que permite o trabalho daquilo que é, e deve ser, uma universidade.
Este projeto resulta de uma parceria entre o Município de Torres Vedras e a Universidade de Lisboa e, neste sentido, gostaria de saber quão importante é esta colaboração entre universidades e autarquias para concretizar projetos que tenham este tipo de impacto no território.
As universidades e as autarquias têm missões muito parecidas e complementares porque aquilo que fazemos é trabalhar diretamente com as pessoas, na formação, na investigação, na inovação […] em processos que são, digamos, de topo e que são processos de fronteira. E no caso das câmaras municipais, das autarquias, é a proximidade com os cidadãos, tentando resolver no dia a dia os seus problemas. E isto casa muito bem, eu acho que as universidades e os municípios não têm outra hipótese que não seja trabalharem em conjunto.
É aquela ideia de descentralizar a universidade do próprio sítio e ir ao local para estar próximo de quem lá está?
O que nós queremos é criar condições para que os estudantes tenham um ambiente que é propício à sua transformação. Não é tanto fazer com que alguém que está num local não saia desse local para trabalhar, mas é, muitas vezes, levar outras pessoas para outro local, porque os estudantes aprendem tanto com os seus colegas e com o ambiente que os rodeia, como com os professores e nós temos que criar este ambiente internacional, multinacional, que seja acolhedor, mas também inclusivo e onde as diversas culturas se encontram. Não é tanto ir levar um serviço ao local onde o estudante está, tentando que ele não saia do seu lugar. O que queremos mesmo é que ele saia, mas sair pode representar continuar no seu sítio, mas ter um ambiente alargado. Outro exemplo: quando nós na Universidade de Lisboa temos doze mil estudantes estrangeiros não é porque queremos mais dinheiro, é porque desta maneira trazemos o mundo para Lisboa e para a Universidade. E os nossos estudantes, os que são daqui, convivem com gente que vem da Argentina, dos Estados Unidos, da Noruega e é neste ambiente multicultural que podem crescer melhor, aprender uns com os outros […]. Quando pensamos em Torres Vedras, não é dizer “agora os habitantes de Torres Vedras já não saem dali” - não é nada disso. Se estivermos ali, levaremos pessoas de outros sítios para Torres Vedras, mas vamos também retirar pessoas de lá que vêm para Lisboa e que voltam depois para Torres Vedras e podem fazer este caminho. Não queremos ter ali coisas em que as pessoas ficam só lá. Queremos que essas pessoas venham para Lisboa. Há vida académica também em Lisboa, como há em Torres Vedras. É esta permuta que permite este crescimento dos nossos jovens.
Podemos dizer que a Universidade de Lisboa está assim a ajudar a construir em Torres Vedras um ecossistema académico na área da saúde?
E que é um ecossistema que se liga também ao grande ecossistema de Lisboa nessa mesma área, portanto não vai ser alguma coisa enquistada em Torres Vedras. É algo que crescendo em Torres Vedras se liga completamente, e de forma muito estreita, com tudo o que acontece também na grande área metropolitana de Lisboa. Torres Vedras não é para Torres Vedras, é para o país. Que impacto é que este campus pode vir a ter na zona torriense e também na região Oeste? Creio que o impacto pode ser muito significativo porque isto vai permitir não só alguma fixação das pessoas que ali estão, criar novos empregos, criar toda uma dinâmica à volta da universidade, mas vai permitir também que seja um polo de atração de outras partes do país, incluindo, de forma talvez particular, de Lisboa. Torres Vedras está a um passo e isto representa um dinamismo maior para aquela zona tão linda de Portugal.
De que forma é que este projeto articula cuidados de saúde, ensino, investigação, formação?
Essa é a forma como nós olhamos para a universidade. Nunca olhamos para a universidade como parcelas separadas e que aqui e ali se encontram. A componente de ensino está estritamente ligada à investigação, que está estritamente ligada à transferência do conhecimento e à inovação. Nós só conseguimos conceber isto como os três lados de um triângulo que estão permanentemente juntos. Se tirarmos um dos lados já não é triângulo […] nós funcionamos permanentemente como esse triângulo, nem sequer conseguimos pensar que fazemos ensino e não estamos a fazer investigação sobre o mesmo assunto. Por isso, para qualquer lado para onde vamos, olhamos para a nossa função sempre nessa tríplice função da universidade.
Num contexto em que o país enfrenta alguma escassez de profissionais de saúde, de que forma é que este projeto pode ajudar a contribuir para formar profissionais qualificados e responder também aos desafios do sistema de saúde?
Isso parece uma pergunta com uma resposta óbvia, mas permita-me que responda para além dela: nós precisamos de profissionais em todas as áreas. O que muitas vezes acontece é que ainda não temos tecido produtivo que consiga reter esses profissionais. Infelizmente, eles nem sempre encontram o ambiente empresarial e económico que os atraia e os retenha aqui. É por isso que dizemos e nos queixamos da fuga dos cérebros, dos nossos licenciados, mestres e doutores que vão permanentemente para outras partes do mundo como empregados, trabalhadores…, mas vão como inovadores. Eles vão formar empresas por esse mundo fora, de forma extraordinária. Na Universidade de Lisboa, nos últimos dez anos, formaram-se, a partir dos nossos estudantes, cerca de mil empresas. E vemos que elas estão nos Estados Unidos, na Holanda, na Alemanha, na Espanha e só em último lugar em Portugal. O que é que se passa? Temos de conseguir encontrar esse ambiente onde todos eles se formam. No caso dos profissionais da saúde é mais visível porque estamos a passar por esta crise na área da saúde, mas ela é transversal.
Que oportunidades diferenciadoras é que este campus pode oferecer aos estudantes, aos docentes, aos investigadores, a quem queira lá exercer as suas atividades?
No caso específico do Hospital do Barro e de Torres Vedras, porque não é só o Hospital do Barro, a sua proximidade à cidade é muito grande. É este sentido de acolhimento, que é possível fazermos sem grande dificuldade, e de inclusão aos nossos estudantes que é muito importante. Torres Vedras é uma cidade muito acolhedora, o ambiente e a forma como está construído o Hospital do Barro e aquilo que temos planeado vai permitir ter ali um centro de excelência no ensino, na investigação, na transferência do conhecimento e na ligação. E esta é uma parte muito importante: a ligação entre a academia e a sociedade civil. Não só com a Câmara Municipal, mas com toda aquela população que está ali e que naturalmente vai olhar para a universidade como alguma coisa a acarinhar.
Que papel podem desempenhar as universidades públicas como motor de desenvolvimento dos territórios?
As universidades públicas, ou outras, só têm uma forma de garantir que são motores de desenvolvimento: têm que ser relevantes e o seu trabalho tem que ser transformador. Isto significa uma aposta muito forte em todos os locais e em todas as ações que nós desenvolvemos. Não é a dispersão, não é a criação de pequenos polos espalhados por cada aldeia que vão desenvolver essas aldeias - isso até é o inverso. Nós precisamos deste ambiente macro, que é multicultural, multinacional, onde as pessoas não tenham mais do mesmo, porque se continuarem no mesmo sítio, onde estiveram com os seus colegas, no jardim de infância, onde fizeram a escola primária, o secundário e agora o curso, nós não estamos verdadeiramente a cumprir o nosso papel. Eu direi que não é a dispersão, mas é a localização racional das universidades públicas pelo território, mas que sejam universidades relevantes, fortes, capazes de fazer sempre esse triângulo (ensino, investigação e inovação).
E é por isso que a Faculdade de Ciências, o Instituto Superior Técnico, todas estas ciências se entrecruzam e a nossa universidade, cada vez mais, é interdisciplinar e transdisciplinar. Cada vez mais os nossos cursos envolvem várias escolas, o que significa que estamos a congregar esforços de um conjunto grande de conhecimentos, de saberes e de pessoas de boa vontade para fazer estas formações que são únicas. Torres Vedras é para ser assim também. Estamos aqui muito próximos, sentimos esta grande vontade do Município de Torres Vedras em trabalhar connosco e nós fazemos aquilo a que nos propusemos desde a fundação: ajudar a transformar este país de forma permanente.
E aos torrienses, quer dizer alguma coisa?
Quero dizer que podem confiar em nós. Estamos aqui para ficar, para fazer um casamento de longo prazo […]. Somos persistentes, muito resilientes e por alguma razão a universidade, que começou em Lisboa, em 1290, ainda existe, com muitos reveses, como sendo um espaço de resistência e um espaço de liberdade.
Assista à entrevista completa através deste link.


