Torres Vedras

Venerando Ferreira de Matos

10.04.2026

Imagem de Venerando Ferreira de Matos

Venerando de Matos é um nome familiar para muitos torrienses, não apenas por conter o nome próprio e o último apelido de um conhecido historiador local, mas também por designar uma importante rua de Torres Vedras localizada nas proximidades da Escola Básica Padre Francisco Soares e nas traseiras do hospital de Torres Vedras.

E quem foi a personalidade que deu nome a essa artéria? Não foi, efetivamente, o historiador Venerando Aspra de Matos, mas foi o pai do mesmo – um torriense “de adoção”, que se destacou pela sua atividade de oposicionista ao Estado Novo.

Nascido no dia 17 de fevereiro de 1926 em Coimbra, Venerando Ferreira de Matos residiu até aos 21 anos na sua cidade natal, à exceção de um período em que com a sua família nuclear viveu em Aveiro, cidade de origem dos seus pais. Foi na “cidade dos estudantes” que iniciou na sua juventude a sua formação e atividade cultural e cívica, tendo também nessa fase da sua vida trabalhado como paquete num jornal e empregado de escritório numa fábrica de cerâmica e frequentado em regime noturno o curso comercial, o qual só conseguiria, no entanto, terminar em Torres Vedras, devido ao facto de ter sido preso, as duas primeiras vezes em 1947, decorrente da sua atividade no MUD (Movimento de União Democrática) Juvenil - o que foi antecedido da sua ligação ao Partido Comunista Português. Na sequência da sua segunda detenção, em que foi interrogado e torturado na prisão do Aljube e esteve na prisão de Caxias, viria a ser julgado no âmbito do “mega processo” que ficou conhecido como o “Julgamento dos 108”.

Despedido em 1947 da fábrica de cerâmica em que trabalhava como consequência da sua primeira prisão, Venerando Ferreira de Matos vem no ano seguinte trabalhar para Torres Vedras, mais concretamente para a secção de uma empresa de exportação de vinhos, enquanto aguardava o início do cumprimento da sua pena. É na prisão de Peniche, de 1952 a 1954, que a vai cumprir na sua quase totalidade, num período em que se dá o seu afastamento do Partido Comunista Português.

Libertado, regressa a Torres Vedras e ao seu trabalho, tendo, no ano seguinte, contraído matrimónio com Maria Helena Costa Aspra de Matos, torriense que conhecera ainda antes do cumprimento da sua pena, e que foi a mãe dos seus dois filhos.

À exceção de um período de três meses, em 1959, em que regressa a Coimbra, Venerando Ferreira de Matos viverá o resto da sua vida em Torres Vedras, trabalhando como “guarda-livros”, contabilista e empregado de escritório.

Envolveu-se na vida cívica torriense, desde ainda o período que antecedeu o cumprimento da sua pena, colaborando com associações (Clube Artístico e Comercial, Associação de Educação Física e Desportiva e Grupo Desportivo e Recreativo da Casa Hipólito), na realização do Carnaval e com periódicos (Jornal do Torreense, Boletim da Física e Badaladas), nos quais publicou crónicas, artigos de opinião, entrevistas, reportagens e diversos trabalhos literários (de que se realça poemas, um conto e excertos de um romance). De referir que no âmbito da sua atividade jornalística acabou por assumir uma postura oposicionista ao Estado Novo.

Com o advento da “Revolução dos Cravos”, e na fase final da sua vida, Venerando Ferreira de Matos voltaria à vida política ativa, seria diretor da Biblioteca Municipal (durante um período de cerca de 10 meses) e diretor e fundador do jornal Oeste Democrático.

Faleceu a 26 de setembro de 1975 no Hospital dos Capuchos, em Lisboa.

Última atualização: 10.04.2026 - 17:00 horas
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